Chuck Billy relembra teste para substituir Max Cavalera no Sepultura: “Felizmente, não consegui”
Chuck Billy, vocalista do Testament, voltou a falar sobre uma oportunidade que poderia ter mudado sua trajetória musical. Em 1996, após a saída de Max Cavalera do Sepultura, o cantor participou do processo de seleção para assumir os vocais da banda brasileira.
Em entrevista ao podcast Mostly Yelling, apresentado por Greg Kennelty, Billy explicou que gostou do resultado de sua gravação, mas acabou enviando o material tarde demais. Quando a demonstração chegou aos integrantes do Sepultura, a banda já havia escolhido Derrick Green como novo vocalista.
“Acredito muito que as coisas acontecem por uma razão, e eu me atrasei. Entreguei minha demo tarde demais. Achei que tinha feito um bom trabalho. Eles gostaram, mas também disseram: ‘Poxa, cara, obrigado por enviar, mas já escolhemos Derrick’. Então, a decisão já estava tomada quando entreguei o material. Mas foi divertido fazer aquilo.”
Na época, o Testament também atravessava um período de incertezas. A banda havia encerrado seu contrato com a Atlantic Records após seis álbuns e buscava uma nova gravadora. Billy explicou que procurava algo mais estável, especialmente diante das mudanças na formação e no cenário musical.
O vocalista também refletiu sobre como sua entrada no Sepultura poderia ter alterado o futuro de sua carreira. Ele lembrou que enfrentaria um diagnóstico de câncer em 2001 e questionou como essa situação teria afetado sua permanência na banda brasileira.
“Eu não sabia exatamente o que estava procurando. Talvez algo mais estável. Estávamos nos desfazendo, perdendo todos os integrantes originais. A cena estava mudando. Talvez eu estivesse procurando algo estabelecido, que tivesse futuro e de que eu gostasse. Então tentei. No fim das contas, novamente, as coisas acontecem por uma razão. Eu estava destinado a me atrasar e não conseguir aquela vaga, porque toda essa música do Testament não teria sido feita nos anos seguintes. E se eu tivesse entrado na banda naquela época e ficado doente, com câncer, em 2001? Tudo teria sido completamente diferente.”
Chuck Billy acredita que o Testament não seria o mesmo
Essa não é a primeira vez que Billy comenta a oportunidade. Em março de 2022, durante uma entrevista ao Rocking With Jam Man, ele já havia afirmado que não se arrependia de não ter conseguido a vaga.
Na ocasião, o cantor destacou que o Testament provavelmente não teria lançado alguns de seus trabalhos mais importantes caso tivesse seguido outro caminho.
“Não, porque o Testament não seria o Testament. Não conseguiríamos escrever os discos que fizemos, como ‘The Gathering’ e todos aqueles grandes álbuns. E a reunião da nossa formação original também não teria acontecido.”
Billy também explicou que, naquele momento, desejava encontrar uma banda que oferecesse segurança profissional. O cenário do Testament era incerto, e a possibilidade de integrar um grupo consolidado parecia uma alternativa interessante.
“Na época em que fiz o teste, eu queria que aquilo acontecesse, porque tudo estava incerto na música. O Testament estava desfeito, tudo estava mudando e o cenário musical também. Então, pensei que queria algo seguro. Queria estabilidade. Para mim, encontrar uma banda estabelecida parecia ser exatamente o que precisava. Felizmente, não consegui. Minha vida teria sido muito diferente se eu ainda estivesse no Sepultura.”
A gravação de Chuck Billy incluía músicas do Sepultura
Em uma entrevista de 2016 ao Eonmusic, o vocalista revelou mais detalhes sobre o material enviado aos brasileiros. Billy gravou três músicas: “Refuse/Resist”, “Territory” e uma versão própria de “Choke”.
Ele explicou que decidiu participar do processo praticamente no último momento, quando percebeu que o Testament estava sem contrato e precisava encontrar um novo caminho.
“Naquela época, pouco antes de fazermos o álbum ‘Demonic’, tínhamos encerrado nosso contrato com a Atlantic e estávamos procurando um novo acordo. Ainda não tínhamos uma gravadora. No último momento, pensei: ‘Sabe de uma coisa? Talvez eu devesse tentar encontrar uma banda sólida, que continuasse fazendo turnês e seguindo em frente’. Naquele momento, o Sepultura estava realizando audições. Acho que foi no final do processo que decidi: ‘Quer saber? Vou tentar’. Acho que fiz três músicas: ‘Refuse/Resist’, ‘Territory’ e escrevi minha própria versão de ‘Choke’. Então entreguei o material a eles.”
Billy também reconheceu que talvez não estivesse completamente preparado para integrar uma formação diferente daquela com a qual havia construído sua carreira.
“Teria sido estranho, sim. Não sei se estava realmente preparado. Se eles tivessem dito: ‘Tudo bem, você está dentro’, eu provavelmente responderia: ‘Bem, deixe-me pensar sobre isso!’. Não sei o que teria feito. Simplesmente tomei a decisão por impulso, como quem pensa: ‘Que se dane! O que tenho a perder?’”
Andreas Kisser elogiou a audição, mas queria uma voz diferente
Em 2015, Andreas Kisser também comentou a participação de Billy no processo de seleção. Durante uma entrevista ao programa The Jasta Show, o guitarrista explicou que o Sepultura enviava aos candidatos uma versão instrumental de uma composição inédita.
A intenção era evitar que os interessados simplesmente reproduzissem as interpretações de Max Cavalera. Por isso, a banda não pediu gravações de clássicos como “Roots Bloody Roots” ou “Refuse/Resist”.
“Chuck colocou seus vocais sobre a versão demo de ‘Choke’. Enviamos a versão instrumental de uma música nova para que os possíveis vocalistas gravassem suas partes. Não queríamos que ninguém cantasse ‘Roots Bloody Roots’ ou ‘Refuse/Resist’, porque não queríamos uma cópia. Queríamos alguém que trouxesse novas ideias, que levasse o Sepultura para outro caminho, para outro nível.”
Kisser destacou que Billy utilizou uma abordagem mais gutural na gravação e considerou o resultado muito bom. O guitarrista também recordou uma apresentação do projeto Metal Allegiance, durante a NAMM, em Los Angeles, na qual tocou músicas do Sepultura com o vocalista do Testament.
“Ele usou mais aquele estilo gutural na gravação do teste. E funcionou. Recentemente, fizemos uma apresentação do Metal Allegiance na NAMM, em Los Angeles, e tocamos algumas músicas do Sepultura com Chuck Billy cantando. Foi ótimo, cara, foi ótimo. Ele fez um trabalho excelente. Mas, sabe, ele é Chuck Billy. Ele é o Testament. Nós queríamos alguém novo.”
No fim, a escolha foi Derrick Green, que assumiu os vocais do Sepultura em 1997 e permanece na formação até hoje. Já Chuck Billy continuou sua trajetória no Testament, participando de álbuns importantes como The Gathering, lançado em 1999, e The Formation of Damnation, de 2008.
Foto: Ian Dias
