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Ian Hill fala pela primeira vez sobre sua aposentadoria do Judas Priest

Ian Hill, baixista e único integrante original remanescente do Judas Priest, explicou os motivos que o levaram a se aposentar da banda após mais de cinco décadas de carreira. Em entrevista ao canal Metal Pilgrim, apresentado pelo ucraniano Vladyslav Stadnyk, o músico detalhou como a artrite e uma lesão grave no ombro dificultaram suas apresentações, além de revelar que quase encerrou sua trajetória no grupo ao fim da turnê anterior.

Hill anunciou sua saída em 9 de outubro, em um comunicado aos fãs. Na ocasião, mencionou a artrite, que descreveu como “maldita”, e outras lesões como motivos para deixar as atividades ao vivo. Apesar da decisão, o baixista continuará presente no próximo álbum do Judas Priest, previsto para 2027, e não descartou subir ao palco em ocasiões especiais.

Lesões tornaram as últimas turnês cada vez mais difíceis

Durante a entrevista, Hill explicou que os problemas físicos já vinham prejudicando seu desempenho nas últimas turnês. A artrite afetou principalmente o polegar, enquanto dores no ombro também dificultaram sua rotina como instrumentista.

“É engraçado, porque as últimas turnês foram um pouco difíceis. O problema está basicamente no meu ombro e no meu polegar. Tenho um grande inchaço no polegar, que é causado pela artrite. Venho lutando contra isso nas últimas duas turnês, mais ou menos.

Infelizmente, não desaparece. É uma daquelas coisas que só pioram com o passar do tempo. Eu quase me aposentei ao final da última turnê.”

O músico contou que a situação se agravou após uma sequência de apresentações na Europa. Inicialmente, a banda havia considerado fazer uma turnê de quatro semanas pelos Estados Unidos, após um convite do Iron Maiden. Quando o plano foi cancelado, outros compromissos acabaram ampliando o período de estrada.

O Judas Priest confirmou uma apresentação no festival britânico Bloodstock e, depois, acrescentou outras datas europeias. O que deveria ser uma agenda mais curta acabou se estendendo por nove semanas.

A sequência de shows cobrou seu preço. Hill relatou que a banda chegou a realizar seis apresentações em oito dias, com pouco tempo para a recuperação física entre os compromissos.

“Foi isso que acabou comigo. Fizemos seis shows em oito dias. Isso aconteceu na sequência de apresentações que nos levou até Bruxelas. Foi quando o tendão se rompeu.

Estávamos fazendo, em média, um dia de show, um dia de folga, e assim por diante, para que a equipe pudesse chegar à próxima cidade. Nos dias de descanso, meu braço se recuperava porque eu não fazia nada. Mas, quando subia ao palco, agravava tudo novamente.

Só que, como eu disse, foram seis shows em oito dias, e não tive tempo para me recuperar. Pouco antes do bis na apresentação de Bruxelas, senti algo se romper e uma dor muito forte, aguda. Pensei: ‘Acabou. Esse é o fim’.

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Durante o bis, precisei apoiar o cotovelo na barriga e puxar o baixo para trás, para conseguir alcançar a parte inferior do braço do instrumento. Agora está melhorando bastante. Já consigo levantar o braço e fazer coisas que não conseguia logo depois do ocorrido.

Naquela época, eu não conseguia movimentá-lo de jeito nenhum. Do cotovelo para baixo, tudo funcionava perfeitamente, mas eu simplesmente não conseguia mexer o ombro. Foi por isso que precisei faltar ao show de Londres. Eu fisicamente não conseguia tocar baixo.”

A lesão fez com que Hill perdesse a apresentação do Judas Priest no Eventim Apollo, em Londres, em 21 de setembro. Na ocasião, a banda contou com Davey Rimmer, baixista do Uriah Heep, que assumiu temporariamente o instrumento após o problema no braço esquerdo do músico.

Davey Rimmer impressionou durante substituição

Hill revelou que a possibilidade de não conseguir cumprir a turnê já havia preocupado os integrantes do Judas Priest. Por isso, a banda chamou Rimmer para aprender o repertório e ficar preparado caso fosse necessário substituir o baixista.

O músico elogiou o trabalho do colega, que teve pouco tempo para se preparar antes de assumir o posto.

“Havia algumas dúvidas sobre se eu conseguiria chegar até o fim, por causa dos problemas que tive no passado. Então, pedimos ao Davey que viesse. Ele foi até a casa do Andy Sneap, em Derbyshire, e aprendeu o repertório, passando pelas músicas com os outros integrantes.

Eu fiquei sentado na cozinha, ouvindo. E ele fez um trabalho inacreditável, de verdade. Teve apenas dois dias de aviso prévio e, de repente, estava no palco. Impressionante. Ele estava voando.

Precisou usar todo o meu equipamento. Trouxe apenas os próprios baixos e realizou uma apresentação absolutamente incrível.”

Apesar de elogiar o substituto, Hill lamentou não ter conseguido participar do show de Londres. Segundo ele, aquela apresentação poderia ter sido sua última com a banda de qualquer maneira.

O baixista contou que procurou especialistas para avaliar o ombro e que recebeu uma proposta de tratamento que não envolve cirurgia inicialmente. O médico teria demonstrado preocupação com a possibilidade de uma operação não produzir o resultado esperado.

“Fiquei muito, muito arrasado por não conseguir fazer aquele último show em Londres. Teria sido minha última apresentação, mas não foi possível. Desde então, consultei especialistas. Na verdade, tenho outra consulta amanhã. O médico tem algum tipo de plano para mim, seja lá o que isso envolva.

Ele não quer me encaminhar para uma cirurgia, o que é uma boa notícia. Se eu operar, disse que não há garantia de que vá funcionar. Então, vai tentar evitar isso, se puder.”

Baixista diz que já pretendia se aposentar

Questionado se teria deixado o Judas Priest mesmo sem o rompimento do tendão em Bruxelas, Hill respondeu que provavelmente sim. O músico explicou que a artrite já tornava cada vez mais difícil continuar na estrada e que a banda havia chamado Rimmer justamente para se preparar para uma possível ausência.

“Eu realmente não tinha escolha a não ser encerrar tudo. Não poderia colocar os outros integrantes em risco e sair para outra turnê, para que o problema acontecesse novamente no meio dos shows.

Isso não seria justo com ninguém: com os fãs, com os outros músicos e com as pessoas que investiram dinheiro para nos levar a esses lugares. De repente, você precisa cancelar apresentações e coisas do tipo. Não é justo.

Por isso, decidi encerrar minha trajetória, e foi o que fiz. Negligenciei minha vida familiar. Isso me custou dois casamentos ao longo dos anos. Então, decidi passar um pouco mais de tempo com as pessoas próximas.”

Hill também explicou que a artrite não costuma melhorar espontaneamente e que, em alguns casos, o tratamento pode exigir a substituição de articulações. O baixista tratou a questão com humor ao comentar os efeitos do envelhecimento.

“Acho que teria me aposentado de qualquer maneira porque, como disse, precisamos chamar Davey no início desta última turnê, só para o caso de alguma coisa acontecer. E aconteceu. Ainda bem que ele estava lá.

Como eu disse, não está melhorando. A artrite não melhora. Você precisa substituir as articulações e coisas assim. É uma daquelas coisas da idade que acontecem quando você chega a certa fase da vida.”

Judas Priest não faria anúncio de despedida no palco

Hill também foi questionado se o vocalista Rob Halford teria anunciado ao público que o show de Londres seria sua última apresentação com o Judas Priest, caso ele tivesse conseguido tocar.

O baixista não acredita que a banda teria feito esse tipo de comunicado. Para ele, transformar o evento em uma despedida oficial exigiria uma sequência de anúncios e apresentações que não combinaria com a situação.

“Não acho que sim. Não sei. Simplesmente não me parecia certo fazer isso, dizer: ‘Este é o último show de Ian. Esta é a última oportunidade de ver Ian’.

Depois, você teria que ir a todos os outros lugares e dizer que aquela também seria a última oportunidade de me ver. Isso claramente não estava nos planos. Eu não poderia fazer isso.”

O músico também demonstrou confiança de que Rimmer conseguirá se firmar na banda, embora reconheça que o baixista poderá enfrentar críticas de parte dos fãs no início.

Hill lembrou que Richie Faulkner também recebeu críticas quando substituiu K.K. Downing, em 2011, assim como Andy Sneap quando assumiu as funções de guitarra ao vivo no lugar de Glenn Tipton, que se afastou das turnês por causa da doença de Parkinson.

“Ele vai receber críticas durante o primeiro ano ou algo assim, até se estabelecer e construir confiança. É disso que se trata. É sempre angustiante fazer algo completamente diferente, como será o caso dele ao sair do Uriah Heep.

Nós o conhecemos há muito tempo, e Richie o conhece muito bem. Eles se conhecem há décadas. Sabemos que tipo de pessoa ele é, e ele não traz nenhuma bagagem do ponto de vista humano. É um cara maravilhoso, de verdade, e um grande baixista. Não há motivo para não conseguir seguir em frente. Desejo toda a sorte do mundo a ele.”

Ian Hill estará no próximo álbum e não descarta participações especiais

Apesar da aposentadoria dos palcos, Hill confirmou que gravou linhas de baixo para o próximo álbum do Judas Priest, previsto para o ano que vem. Ainda há algum trabalho a concluir, mas ele acredita que conseguirá participar se mantiver o instrumento na posição adequada.

“Consegui gravar as partes de baixo para o novo álbum, que será lançado no ano que vem. Ainda há um pouco de trabalho a fazer. Se eu conseguir manter o baixo na posição correta, poderei terminar. Pelo menos estarei no disco, se não for por mais nada.”

O baixista também não pretende desaparecer completamente da rotina do grupo. Ele afirmou que pretende acompanhar apresentações ocasionalmente, inclusive para ouvir o som da banda de uma perspectiva diferente.

“Não vou ser um estranho. De vez em quando, vou aparecer e ficar perto da mesa de som para realmente ouvir como tudo soa. Provavelmente ficarei impressionado, porque tudo acontece atrás de você. Não dá para ver nada. Você está concentrado no que está tocando e no público e, de vez em quando, se vira para ver o que está acontecendo.”

Hill ainda deixou aberta a possibilidade de participar de músicas específicas em shows comemorativos ou apresentações marcantes, caso a banda queira convidá-lo.

“Sim, já disse aos caras que estou totalmente aberto a esse tipo de coisa. Se precisarem de mim para uma ocasião especial ou algo assim, ficarei muito feliz em subir ao palco e fazer o que puder.

Não conseguirei fazer mais do que consigo agora. Não que eu vá tirar Davey do lugar dele novamente, mas posso subir e fazer o que Glenn fez: tocar um ou dois bis em algum show importante. Isso, claro, se os caras quiserem que eu faça isso e se Davey estiver de acordo. Ele pode reivindicar o lugar e dizer: ‘Agora isso aqui é meu’.”

A história de Ian Hill no Judas Priest

Formado em 1969, o Judas Priest teve Hill como seu único integrante original remanescente até o anúncio de sua aposentadoria. Rob Halford entrou na banda em 1973, enquanto Tipton passou a integrar a formação em 1974.

Halford deixou o grupo no início dos anos 1990 para seguir carreira com sua própria banda e retornou em 2003. Downing se afastou em 2011 e foi substituído por Faulkner.

Já Davey Rimmer nasceu em Liverpool e começou a tocar baixo aos 11 anos, inspirado por bandas como Queen, Uriah Heep, Led Zeppelin e Deep Purple. Ele desenvolveu suas habilidades acompanhando discos de vinil e se mudou para Londres na década de 1990, onde passou a atuar na cena rock local.

Rimmer excursionou e gravou dois álbuns com o Zodiac Mindwarp & The Love Reaction: Rock Savage (2005), lançado pela Cosmodelic Records, e We Are Volsung (2010), pela SPV/Steamhammer. Entre suas influências estão baixistas britânicos como John Entwistle, John Deacon, Trevor Bolder, Bob Daisley e Neil Murray.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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