Angela Gossow fala como Lauren Hart entrou no Arch Enemy e revela planos do futuro da banda
Angela Gossow, ex-vocalista e atual empresária do Arch Enemy, e Lauren Hart, nova voz da banda sueca de death metal melódico, participaram de um episódio do podcast She’s With The Band, do Knotfest, apresentado por Tori Kravitz. Durante a conversa, as duas falaram sobre a chegada de Lauren ao grupo, as semelhanças entre suas trajetórias, a experiência de fazer turnês e os próximos passos da banda, incluindo indícios de um possível novo álbum.
Angela explicou que conheceu Lauren quando ela ainda integrava o Once Human. Na época, chamou sua atenção a quantidade de comparações entre as duas vocalistas, principalmente pela maneira como utilizavam a voz. A empresária também acompanhava a energia de Lauren no palco e soube que o álbum Wages of Sin, lançado pelo Arch Enemy em 2001, havia inspirado a cantora a desenvolver seus vocais extremos.
“Conheço Lauren desde que ela apareceu com sua antiga banda, o Once Human, nos dois primeiros discos que lançaram. E percebi sua presença porque, na verdade, havia muitas comparações entre mim e ela, especialmente em relação aos vocais. Ela também é uma pessoa muito enérgica no palco. Ela deu uma entrevista dizendo que Wages of Sin, álbum do Arch Enemy lançado em 2001, basicamente a inspirou a fazer esse tipo de vocal gutural. Isso também apareceu no meu feed, e achei muito interessante e legal de ver.”
Angela destacou que considera interessante observar como músicos desenvolvem suas próprias identidades a partir de referências que admiram. Ela também lembrou que acompanhava de perto as mulheres que surgiam no metal, especialmente em uma época em que havia menos vocalistas femininas no cenário.
A aproximação entre as duas aconteceu gradualmente, enquanto o Once Human deixava de estar ativo e Lauren procurava novos caminhos profissionais. Angela gostava de algumas versões que a cantora publicava e chegou a sugerir que ela explorasse uma combinação de influências de Arch Enemy, Dimmu Borgir e Machine Head.
“Sempre acho interessante quando as pessoas dizem: ‘Você é minha influência’, mas soam completamente diferentes. Quero dizer, elas levam essa influência para outro lugar. Imagino que todos nós façamos isso, mas é interessante acompanhar esse processo. Não havia tantas mulheres no metal, então eu acompanhava cada uma delas. Começamos a conversar casualmente, trocando mensagens de vez em quando, porque o Once Human não estava acontecendo, e Lauren estava procurando outra coisa para fazer. Eu gostava de algumas versões que ela estava fazendo. Um dia, simplesmente disse a ela: ‘Acho que você deveria estar em algum tipo de mistura entre Arch Enemy, Dimmu Borgir e Machine Head’, falando dos vocais.”
A ideia inicial de Angela, entretanto, não era necessariamente colocar Lauren no Arch Enemy. Ela pensava em reunir músicos para um novo projeto e chegou a considerar a possibilidade de montar uma banda para a cantora. Afinal, substituir uma voz já estabelecida em um grupo com uma identidade consolidada não era algo simples.
A situação mudou quando Angela decidiu testar a compatibilidade de Lauren com o Arch Enemy. Ela pediu que a cantora gravasse uma versão de uma música da banda, sem revelar inicialmente a dimensão do que poderia estar por trás do convite.
Lauren Hart foi surpreendida pelo convite
Angela comparou a experiência de Lauren à sua própria entrada no Arch Enemy. Quando recebeu a oportunidade de integrar o grupo, a alemã também não imaginava que uma gravação inicial se transformaria em um convite para assumir os vocais de um álbum inteiro.
Na época, ela gravou “Enemy Within”, faixa de Wages of Sin, acreditando que participaria apenas de um teste em estúdio. Depois, recebeu a proposta de continuar no disco.
“Imagino que aquele tenha sido o meu momento no metal, quando o Arch Enemy me chamou para entrar na banda. Também gravei uma faixa de Wages of Sin, ‘Enemy Within’, e depois me perguntaram se eu gostaria de continuar com o restante do álbum. Foi uma surpresa para mim também. Pensei que estivesse apenas fazendo um teste de uma música no estúdio, o que já era algo enorme para mim. Eu nunca tinha ido a um estúdio, muito menos para trabalhar com Fredrik Nordström. Ele era uma lenda naquela época. Tinha acabado de produzir o álbum do Dimmu Borgir. Era o cara do metal em Gotemburgo.”
Ao recordar a audição de Lauren, Angela elogiou a disposição da cantora para enfrentar o desafio, mesmo diante das inseguranças. O processo aconteceu rapidamente porque a banda estava sem vocalista em dezembro de 2025 e queria continuar na estrada.
“Ela se saiu muito bem. Tinha suas preocupações e seus medos, mas fez aquilo. Acho que, quando alguém simplesmente vai lá e faz, demonstra muita coragem. É disso que você precisa. Além disso, eu sabia que ela tinha experiência com turnês. Não dava para simplesmente sair perguntando a qualquer pessoa. Naquele momento, talvez eu conhecesse três pessoas a quem poderia recorrer, porque tudo precisava acontecer muito rápido. Ficamos sem vocalista em dezembro de 2025 e pensamos: ‘Droga, queremos continuar fazendo turnês e queremos continuar com a banda’. Então, ela precisava ser rápida. Precisava passar por todas as etapas em pouco tempo.”
Lauren, por sua vez, descreveu o convite como um divisor de águas em sua vida. Ela contou que ficou feliz apenas por Angela estar em contato com ela e decidiu se dedicar integralmente à oportunidade.
A princípio, a cantora imaginou que estivesse sendo convidada para um projeto paralelo, pois Angela havia demonstrado interesse em uma versão que ela fizera de uma música do Dimmu Borgir. Mesmo sem saber exatamente o que estava sendo planejado, Lauren acreditava que o resultado seria especial.
“Foi uma enorme mudança na minha vida. Sou muito grata e não poderia estar mais feliz. Fiquei muito feliz só pelo fato de Angela estar se comunicando comigo naquele momento. Pensei: ‘Meu Deus, isso é ótimo’. Ela não brinca em serviço, sabe? Então, fosse o que fosse, eu estava totalmente dentro. Fui direto gravar. No começo, achei que fosse para um projeto paralelo, porque ela estava muito interessada na minha versão de Dimmu Borgir. Independentemente do que fosse, sabia que seria incrível.”
A música escolhida para o teste foi “Ravenous”, uma das favoritas de Lauren. Segundo ela, a faixa teve um papel fundamental em seu interesse pelos vocais extremos ainda na adolescência.
“Escolhi ‘Ravenous’, do Arch Enemy, porque é minha música favorita absoluta. Foi essa música que me fez começar a gritar quando eu tinha 15 ou 16 anos, ou algo assim. É engraçado porque, embora Angela e o Arch Enemy tenham sido a razão pela qual comecei, nunca achei que conseguiria interpretar aquelas músicas. Eu não queria nem tocar nelas. Achava que eram intocáveis, como se estivessem em um nível divino. Mas, quando finalmente fiz aquela música, foi algo que nem consigo explicar. Parecia que ela já fazia parte de mim. Está comigo desde que eu era criança. Quando surgiu, era algo tão cru e verdadeiro, e eu estava passando por momentos difíceis. Angela chegou a dizer: ‘Quando você grita, é muito terapêutico’. E isso é verdade. Não poderia estar mais feliz. Tudo funcionou muito bem.”
Cantora relembra primeiro show e recepção dos fãs
Em julho de 2026, Lauren também falou à revista alemã Metal Hammer sobre sua estreia nos palcos com o Arch Enemy. O primeiro show aconteceu em 27 de março, em Pequim, na China.
A cantora descreveu a apresentação como a realização de um sonho e uma conexão com a adolescente que descobriu a banda por meio de Wages of Sin.
“Foi a realização de um sonho para mim e o início de um novo futuro. De alguma forma, aquilo me conectou à criança que amava o Arch Enemy desde o álbum Wages of Sin. Tudo isso estava passando pela minha cabeça, mas, ao mesmo tempo, nada disso estava, porque eu estava completamente presente naquele momento. Foi algo avassalador, e a resposta do público foi incrível. Eu estava em outro planeta. Estava muito feliz.”
Lauren também se disse surpresa com a recepção positiva dos fãs. Ela esperava que a conquista do público levasse mais tempo, considerando as dificuldades que costumam acompanhar mudanças de formação em bandas com uma base de admiradores tão fiel.
“Recebi muito carinho de todos, e isso realmente me surpreendeu. Acho que, na minha cabeça, imaginava que levaria algum tempo. Pensava que precisaria trabalhar muito para conquistar esse reconhecimento, porque mudanças são realmente difíceis. Mas a recepção foi extremamente positiva desde o início, e todos foram muito acolhedores e calorosos na plateia. Fiquei muito feliz, muito feliz mesmo, e um pouco surpresa. Foi incrível desde o primeiro momento.”
A vocalista também relembrou quando ouviu Arch Enemy pela primeira vez. O contato aconteceu quando Wages of Sin foi lançado, enquanto ela passava tempo com amigos que apresentavam diferentes bandas de metal.
Naquele momento, Lauren não sabia que a voz que a impressionava pertencia a uma mulher. A descoberta despertou sua curiosidade e contribuiu diretamente para o início de sua própria trajetória nos vocais extremos.
“Foi quando Wages of Sin saiu. Eu estava com meu grupo habitual de amigos, que me apresentava ao metal, e todos eles eram guitarristas. Quando colocaram o CD para tocar, pensei: ‘Meu Deus, ele canta muito bem. Aquele vocalista é incrível’. E eles me disseram: ‘Não é um homem. É uma mulher’. Eu não fazia ideia de que mulheres podiam gritar daquele jeito. Naquela época, não sabia disso. Eles tinham uma banda e estavam tocando suas músicas, e eu implorava para que me deixassem tentar. Foi assim que acabei começando a fazer vocais extremos.”
Angela Gossow continua à frente da gestão do Arch Enemy
Angela Gossow deixou os vocais do Arch Enemy em 2014, após 13 anos à frente da banda. A decisão surpreendeu o cenário do heavy metal, mas ela continuou envolvida com o grupo como empresária, acompanhando seus negócios e decisões profissionais.
Ao anunciar sua saída, Angela declarou que estava passando o posto para Alissa White-Gluz, a quem descreveu como uma vocalista extremamente talentosa e uma amiga querida havia muitos anos.
Alissa assumiu os vocais naquele ano e permaneceu na banda até a mudança que levou Lauren Hart ao posto em 2025. Agora, Angela volta a ter um papel importante na escolha da voz que representa o Arch Enemy, enquanto Lauren inicia uma nova etapa com o grupo.
Foto: André Tedim
