Alter Bridge e a banda que nasceu das cinzas do Creed e iniciou a trajetória com “One Day Remains”
Poucas bandas conseguiram transformar uma ruptura em um ponto de partida tão importante quanto o Alter Bridge. Quando o grupo surgiu oficialmente em 2004, havia uma história recente que inevitavelmente acompanhava seus integrantes: o enorme sucesso do Creed.
Para o público, a nova banda poderia parecer apenas uma continuação do grupo que havia dominado as rádios norte-americanas no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Afinal, Mark Tremonti, Scott Phillips e Brian Marshall tinham participado da trajetória do Creed.
Mas havia uma diferença fundamental. O vocalista Scott Stapp não estava mais ali.
No lugar dele surgiria Myles Kennedy, um cantor que ainda estava longe da projeção que conquistaria nos anos seguintes, mas que carregava uma característica capaz de mudar completamente o futuro daquele projeto: uma voz poderosa, versátil e muito diferente daquela que havia definido o Creed.
A história do Alter Bridge começou, portanto, antes mesmo de a banda existir oficialmente. E para entender por que “One Day Remains” se tornou um disco tão importante, é preciso voltar alguns anos.
Antes do Alter Bridge, havia o Creed
A parceria entre Mark Tremonti e Scott Stapp começou na Flórida, onde os dois desenvolveram as primeiras ideias que acabariam dando origem ao Creed. O projeto ganhou forma durante a década de 1990 e encontrou em Brian Marshall e Scott Phillips os músicos que completariam a formação clássica.
O resultado foi explosivo.
O Creed estreou com “My Own Prison”, em 1997, e rapidamente se tornou uma das grandes forças do rock norte-americano. A banda cresceu ainda mais com “Human Clay”, de 1999, e sucessos como “Higher” e “With Arms Wide Open”.
O álbum seguinte, “Weathered”, de 2001, confirmou a dimensão alcançada pelo grupo.
Mas, por trás do sucesso comercial, as relações internas estavam longe de ser tranquilas.
Brian Marshall deixou o Creed em 2000, após problemas envolvendo sua relação com Scott Stapp. A banda continuou como um trio, com Tremonti assumindo também o baixo durante determinado período, mas as tensões internas não desapareceram.
O cenário se tornou ainda mais complicado conforme o grupo avançava.
Depois de uma trajetória marcada por enorme sucesso, mas também por conflitos, o Creed entrou em um período de inatividade. Em 2003, Mark Tremonti e Scott Phillips começaram a olhar para o futuro e perceberam que não necessariamente precisavam continuar naquela mesma história.
Era hora de começar outra.
Mark Tremonti queria uma nova banda
A decisão não significava abandonar as características que haviam feito o Creed funcionar. Tremonti continuava interessado em riffs pesados, melodias marcantes e grandes refrões.
A diferença estava na liberdade.
O guitarrista começou a trabalhar em novas composições ao lado de Scott Phillips, inicialmente pensando em um projeto que pudesse recuperar o prazer de tocar rock sem carregar todo o peso que havia acompanhado os últimos anos do Creed.
O baixista Brian Marshall, antigo companheiro dos dois, logo voltou à equação.
A reunião tinha um significado especial. Marshall havia deixado o Creed anos antes, mas a amizade e a química musical com Tremonti e Phillips continuavam existindo.
Com três quartos da formação definida, restava encontrar algo que pudesse determinar o verdadeiro caráter da nova banda.
Uma voz.
E foi nesse momento que surgiu Myles Kennedy.
Quem era Myles Kennedy antes do Alter Bridge?
Para boa parte do público que conhecia o Creed, Myles Kennedy era praticamente um desconhecido.
Mas Mark Tremonti já havia cruzado com ele anos antes.
Kennedy era vocalista e guitarrista do The Mayfield Four, banda que chegou a abrir shows do Creed durante a década de 1990. Tremonti conhecia, portanto, o trabalho do músico e tinha uma noção de suas capacidades.
O The Mayfield Four havia lançado “Fallout”, em 1998, e “Second Skin”, em 2001, mas nunca alcançou o sucesso comercial necessário para se estabelecer no mercado.
Kennedy também enfrentava um período de incertezas profissionais.
Quando Tremonti e Phillips começaram a procurar um vocalista para o novo projeto, o nome de Kennedy voltou à conversa.
E a combinação funcionou.
A chegada de Kennedy alterou imediatamente a perspectiva do grupo. O cantor tinha uma extensão vocal muito maior e uma abordagem diferente daquela associada a Scott Stapp. Em vez de simplesmente substituir um vocalista, o novo projeto ganhava a possibilidade de construir uma identidade própria.
A formação estava completa:
Myles Kennedy nos vocais e guitarra, Mark Tremonti na guitarra, Brian Marshall no baixo e Scott Phillips na bateria.
Nascia o Alter Bridge.
Uma ponte para o desconhecido
O próprio nome escolhido pela banda carregava um significado simbólico.
Alter Bridge fazia referência a uma ponte associada à infância de Mark Tremonti, próxima à região onde ele viveu em Michigan. A ideia da ponte também combinava perfeitamente com o momento enfrentado pelos músicos: atravessar de uma fase conhecida para algo completamente novo.
Eles tinham acabado de sair de uma das bandas de rock mais bem-sucedidas de sua geração. Agora precisavam provar que eram capazes de construir alguma coisa sem depender daquele passado. E o desafio era ainda maior porque as primeiras músicas inevitavelmente carregavam algumas características que os fãs reconheceriam. Afinal, Tremonti havia sido uma das principais forças criativas do Creed.
Mas havia algo diferente.
A guitarra estava mais agressiva, as composições tinham um peso maior e a voz de Kennedy oferecia novas possibilidades melódicas. A ideia não era fingir que o Creed nunca existiu. Era seguir em frente.
“One Day Remains” começa a tomar forma
Grande parte do material que viria a formar o primeiro disco do Alter Bridge já havia sido trabalhada por Mark Tremonti antes mesmo de a formação estar completa.
O guitarrista assumiu um papel central na composição, enquanto Myles Kennedy ajudou a transformar aquelas estruturas instrumentais em músicas completas. O trabalho resultaria em um álbum que ainda apresentava ecos inevitáveis do Creed, mas que também apontava para algo diferente.
A produção ficou nas mãos de Ben Grosse, e as gravações foram realizadas para a Wind-up Records, a mesma gravadora associada ao Creed. A escolha da gravadora também contribuía para aumentar a expectativa. Para o mercado, aquele era praticamente o retorno de parte do núcleo do Creed. Para os músicos, entretanto, era o primeiro capítulo de uma banda nova.
O repertório incluía algumas das músicas que se tornariam fundamentais para a identidade do grupo.
“Find the Real” apresentava o peso que Tremonti pretendia imprimir ao projeto. A faixa-título, “One Day Remains”, ajudava a estabelecer a atmosfera emocional do disco. “Open Your Eyes” seria responsável por apresentar a banda ao público em grande escala.
E havia ainda “Metalingus”, “Broken Wings”, “In Loving Memory”, “Down to My Last”, “Watch Your Words”, “Shed My Skin” e “The End Is Here”. O disco reunia 11 faixas.
Mas, antes de o álbum chegar às lojas, havia uma pergunta inevitável: o Alter Bridge conseguiria sobreviver sem o nome Creed?
“Open Your Eyes” apresenta uma nova identidade
A resposta começou a aparecer quando “Open Your Eyes” foi escolhida como primeiro single.
A música carregava elementos familiares para quem acompanhava Mark Tremonti, mas a presença de Myles Kennedy alterava completamente a percepção. O vocalista não tentava reproduzir Scott Stapp.
E essa provavelmente foi uma das decisões mais importantes da história da banda. Em vez de transformar o Alter Bridge em uma espécie de Creed sem seu cantor original, os quatro músicos apresentavam uma nova combinação de peso, melodia, solos de guitarra e vocais de grande alcance.
A diferença também aparecia na maneira como Tremonti trabalhava suas guitarras.
O guitarrista, já conhecido por sua participação no Creed, tinha agora espaço para explorar ainda mais o lado instrumental, enquanto Kennedy acrescentava uma dimensão vocal que permitiria à banda avançar muito além das fronteiras do pós-grunge.
A própria crítica da época percebeu a diferença. O AllMusic observou que “One Day Remains” ainda carregava alguns elementos reconhecíveis do Creed, mas destacou que Kennedy apresentava uma abordagem vocal muito menos melodramática e mais agressiva, aproximando-se em determinados momentos de referências como Chris Cornell.
O passado estava ali. Mas não era mais o destino.
O lançamento de “One Day Remains”
“One Day Remains” foi lançado em 10 de agosto de 2004 pela Wind-up Records. A recepção comercial mostrou imediatamente que o público estava disposto a acompanhar aquela nova fase.
O álbum estreou na quinta posição da Billboard 200, um resultado expressivo para uma banda que acabava de surgir oficialmente e que ainda precisava convencer parte do público de que não era simplesmente uma continuação do Creed.
“Open Your Eyes” tornou-se um dos grandes cartões de apresentação do grupo, enquanto “Broken Wings” e “Find the Real” também ajudaram a consolidar a primeira fase da banda. Nos Estados Unidos, o álbum posteriormente recebeu certificação de ouro da RIAA, com vendas superiores a 500 mil cópias.
Mais importante do que os números, porém, era o que o disco representava.
O Alter Bridge havia conseguido nascer de uma situação que poderia facilmente ter terminado em nostalgia. Em vez disso, os músicos utilizaram o fim do Creed como uma oportunidade para começar novamente.
O primeiro passo de uma carreira que ainda estava apenas começando
É impossível ouvir “One Day Remains” sem reconhecer de onde aqueles músicos vieram.
As guitarras de Mark Tremonti, a bateria de Scott Phillips e o baixo de Brian Marshall carregavam anos de experiência acumulada no Creed. Mas a presença de Myles Kennedy impedia que o resultado fosse simplesmente uma repetição.
A voz do cantor deu ao projeto uma nova identidade e abriu caminho para uma parceria criativa que permaneceria no centro do Alter Bridge pelas décadas seguintes. Naquele momento, entretanto, ninguém poderia prever completamente até onde aquela combinação chegaria.
“One Day Remains” era apenas o começo.
A banda ainda enfrentaria problemas com a gravadora, mudanças na estrutura de sua carreira, turnês, novos discos e uma transformação progressiva de seu som. O Alter Bridge encontraria sua identidade de maneira ainda mais definitiva nos trabalhos seguintes, especialmente em “Blackbird”, lançado em 2007.
Mas a história começa aqui. Quatro músicos atravessaram uma ponte entre o passado e o desconhecido. De um lado estava o Creed, uma das maiores bandas de rock de sua geração. Do outro, uma banda chamada Alter Bridge.
E no meio estava “One Day Remains”, o álbum que provou que o fim de uma história não precisava significar o fim dos músicos que a construíram.
O retorno ao Brasi em 2026
Em 2026, é hora dos fãs brasileiros se reencontrarem com o Alter Bridge. Após um ótimo show solo realizado em 2023, a banda retorna agora como atração de abertura para o Iron Maiden em suas três noites pelo país. Nos dias 25 e 27 de outubro, eles tocam na NuBank Parque em São Paulo, e no dia 28, é a vez de Curitiba os receber.
O Alter Bridge está em turnê de seu último trabalho lançado, o disco homônimo, que chegou as lojas no começo deste ano.
