Anette Olzon volta ao RJ celebrando sua passagem pelo Nightwish com direito a orquestra
Texto: Carlos Monteiro
Fotos: Ian Dias
O tempo pode destruir carreiras, mas também é capaz de trazer conforto e reconhecimento a artistas com experiências difíceis em sua trajetória. É o caso da sueca Anette Olzon, que teve a espinhosa missão de substituir Tarja Turunen junto aos finlandeses do Nightwish em 2007, mas que ainda em 2026 encontra um público fiel na América Latina.


Isso ficou comprovado no show de 29/09, no Teatro dos Quatro (Shopping da Gávea), no Rio de Janeiro, o encerramento de uma mini-turnê que também passou por Belo Horizonte (24/09) e São Paulo (26/09). O apelo adicional para voltar ao país apenas um ano depois foi incorporar, além de uma banda tradicional, também uma orquestra e um coro. A nova configuração realmente permitiu um resultado interessante, tanto no aspecto musical, como no visual. O efeito foi positivo, mesmo que o público no Rio fosse cerca da metade da capacidade de 400 lugares do teatro, em espaço menor que o do ano passado.
O repertório, mais uma vez, baseou-se nos dois álbuns de que Anette participou na discografia do Nightwish: “Dark Passion Play” (2007) e “Imaginaerum” (2011). Ambos têm como característica o registro musical diferente do de Anette, fora do canto lírico que era a marca de Tarja.

Como sempre simpática, sorridente e fazendo dancinhas divertidas, Anette também investe no visual, ainda que o resultado possa ficar no mínimo inusitado, como a meia-calça em que um lado só era listrado de preto e rosa. Na parte de cima, novamente um corpete preto, com suas tatuagens à mostra. Devido ao público pequeno, o show acaba se tornando uma festa, com o público cantando todas as músicas e interagindo diretamente com a cantora na beira do palco. E dessa vez, ela foi acompanhada da Orquestra Guarany

O show abre com o instrumental “Taikatalvi”, servindo como uma apresentação do coro e da orquestra, uma abertura atmosférica para a entrada da banda e de Anette. Logo emendam na potente “Storytime”, ambas de “Imaginaerum”. Esta é uma canção que mostra o estilo que o Nightwish precisou adotar nessa fase, com menos dramaticidade operística e mais uma interpretação pop/teatral, mais adequada à cantora.
O peso continua com a mais pesada e sombria “7 Days To The Wolves”, de “Dark Passion Play”, seguindo na mesma linha com “Ghost River”, em que o vocal masculino ao vivo com o baixista Felipe Duarte faz o famoso contraponto que originalmente é de Marko Hietala, motivo pelo qual Anette anuncia no show que Felipe é o “Marko 2.0” e arranca risos da plateia.
Provavelmente o grande hit da era Anette, e talvez a música mais imediatamente acessível desse repertório, “Amaranth” (“Dark Passion Play”) ganha o reforço e dueto de Lya Seffrin, que atuou no coro, mas também é a vocalista da banda curitibana Magistry, responsável por abrir o show de Anette. A canção é sempre uma agradável audição ao vivo, graças à melodia forte, ao refrão grandioso e à estrutura pop-rock eficiente. Na vibe “circo macabro” de “Scaretale”, parte da equipe e da banda de abertura entra no palco caracterizada como palhaços sinistros, fazendo caras, bocas e poses.

Uma belíssima inclusão no show do Rio foi “Slow, Love, Slow” (“Imaginaerum”) com seu arranjo jazzístico na parte acústica, em que Anette pôde mostrar sua bela voz e versatilidade para esse tipo de execução. A seção acústica segue com as muito queridas pelo público “Turn Loose The Mermaids” e “The Islander”, esta originalmente muito associada à voz de Marco Hietala, mas aqui com boa participação de Anette junto a Felipe Duarte.


Vem então a dramática e impactante “The Poet and The Pendulum”, que sempre exigiu bastante de Anette, tanto que ela ironiza a exigência do líder do Nightwish, Tuomas Holopainen, de que ela alcançasse as altas notas na época da gravação. “Ele fazia isso porque não precisava cantar”, dispara, fazendo graça.
Essa parte final do show emenda em “Meadows of Heaven”, uma das favoritas de Anette em “Dark Passion Play” e que confessa sempre fazer chorar. É o famoso “momento pastora” em que a intérprete fala dos “prados do paraíso”, imagem simbólica da infância em que tudo parecia enorme, misterioso e cheio de possibilidades.
Outra boa inclusão no setlist foi “Escapist”, faixa bônus de “Dark Passion Play” que é bastante querida pelos fãs. O refrão direto, mas também melancólico, fez a plateia cantar junto. Isso aconteceu ainda com mais força na derradeira e catártica “Last Ride Of The Day”, fechando em alto astral essa festa musical de uma cantora carismática acompanhada de uma banda competente e com o acréscimo luxuoso de orquestra e coro.
No final, Anette promove a já tradicional interação com autógrafos e fotos na beira do palco e ainda indica que quer voltar em um ano. Enquanto o público pequeno for capaz de fazê-la vir ao Rio, os fãs certamente estarão lá por ela.


Com parte de seus integrantes que fizeram “dupla jornada” acompanhando Anette, a banda curitibana Magistry tocou antes da cantora sueca com seu autointitulado “metal alquímico”, mas com base no tradicional metal sinfônico. O vocal gutural de Leonardo Arentz contrasta com o canto mais limpo da vocalista Lya Seffrin, com licenciatura em música e pós-graduação em pedagogia vocal.
O show começou com o som meio embolado, mas logo a banda conquistou boa reação da plateia com canções autorais, como “Divine”, “Frozen Heart Fades” e “Lost Paradise”. O grupo investe no figurino e visual dos integrantes e tem buscado misturar o metal sinfônico a ritmos brasileiros. A obra do Magistry contém os trabalhos “The Delightful Companion”, “The New Aeon” e “Venus Mellifera”.





