Iron Maiden celebra 50 anos de carreira com estádio lotado em primeira noite em SP
Texto: Daniela Reigas
Os dinossauros do heavy metal britânico IRON MAIDEN retornam ao Brasil com a RUN FOR YOUR LIVES WORLD TOUR, celebrando os 50 anos de carreira em três datas, sendo duas em São Paulo e uma em Curitiba. Em sua passagem anterior pelo país, os fãs testemunharam nada mais, nada menos do que a despedida do lendário baterista Nicko McBrain, que fez seu último show com a banda em São Paulo. Portanto, essa é a primeira apresentação em terra brasilis com o novo integrante, Simon Dawson, parceiro do “patrão” Steve Harris em sua banda paralela BRITISH LION. Os norte-americanos do ALTER BRIDGE são os escolhidos para acompanhar a banda nessa turnê.
A primeira apresentação foi no domingo, 25/10, no Nubank Parque. Com ingressos esgotados, debaixo de chuva, em meio às eleições presidenciais e submetidos a uma regra nunca antes implementada nos shows sobre obrigatoriedade de assentos numerados em determinados setores, os “maidenmaníacos” optaram por chegar cedo para evitar contratempos – teve até quem passou dias acampado nas proximidades do estádio – mas felizmente não houve relatos de problemas na entrada, que foi liberada desde as 16h, ou na organização/ocupação dos lugares.
Às 19:10h, pontualmente, o quarteto de heavy rock/metal alternativo sobe ao palco discretamente, mas logo rompe o silêncio com os riffs pesados de “Silent Divide”, faixa que também abre o álbum mais recente da banda, “Alter Bridge”, lançado em janeiro. Formada nos anos 2000 pelo guitarrista Mark Tremonti e pelo baterista Scott Phillips, ambos do CREED, e com um estilo bem mais moderno do que o dos anfitriões, é de se esperar que grande parte do público não esteja muito familiarizada, mas claramente, os vocais distintos, agudos e super técnicos de Myles Kennedy (esse sim já mais conhecido por seu trabalho com o SLASH AND THE CONSPIRATORS) contrastando com o peso do belo baixo cintilante de Brian Marshall chamaram a atenção logo de cara, fazendo quem estava batendo papo parar pra prestar atenção.
Na sequência, uma tríade do álbum Fortress (2013) confirmou a potência e versatilidade dos músicos. Em “Addicted to Pain”, destacam-se a bateria bem marcada de Scott e o solo de Tremonti. Durante a troca de instrumentos necessária para a excelente “Cry of Achilles”, Myles aproveita para cumprimentar a plateia com um “Boa noite SP!” em bom e velho português – muito simpático, ele diz que passou o dia todo praticando a saudação e que esperava não ter feito cag@da. O frontman exibe aqui suas múltiplas habilidades, desde a intro dedilhada até o solo, passando pelas linhas vocais complexas e momentos de ‘reger’ as palmas da plateia; mas, ao final da música, com humildade, pede aplausos para Brian pela execução das linhas velozes do baixo. Na faixa-título, com partes mais cadenciadas, a plateia a balança as mãos ao alto – arrancando um “Obrigado” de Myles pela participação. O cantor agradece ainda ao próprio Iron Maiden pela oportunidade de estarem excursionando juntos, e confessa que estava até nervoso antes de subir ao palco perante as lendas.

Dando continuidade, o setlist traz três hits – “Silver Tongue”, que faz os fãs baterem cabeça; “Metalingus” – a mais tocada nas plataformas digitais -, na qual Myles, livre da guitarra, aproveita para apresentar seus colegas de palco e fazer o “duelo” de qual lado da plateia grita mais alto; e a melancólica “Blackbird”, propícia para que muitas lanternas de celular se acendam na plateia. Impressionados pela entrega da performance emocionante, todos aplaudem e gritam o nome da banda calorosamente. Como essa canção costuma encerrar o show, Myles agradece e anuncia que ainda tem mais uma, e diz que quer ver todo mundo gritando –

“Isolation” é a escolha de fechamento. Antes de se retirarem do palco, os músicos atiram muitos souvenirs para os fãs, como palhetas e baquetas. Apesar do setlist curto (50 minutos) e da produção modesta de palco, a apresentação agradou tanto a fãs quanto a quem estava ouvindo pela primeira vez.
Por falar em setlist – quando se trata de um espetáculo audiovisual do porte do Iron Maiden, com pirotecnia, elementos cenográficos e performances teatrais, a produção é milimetricamente calculada para que não haja falhas ou imprevistos. Portanto, se por um lado, elimina-se o elemento surpresa de ter alguma música diferente, por outro, garante-se que todos os fãs ao redor do mundo poderão desfrutar da mesma experiência em nível de excelência.

Sendo assim, às 20:40h, as luzes se apagam e sobe o playback de “Doctor Doctor”, do UFO, tradição que anuncia a chegada dos ingleses, assim como “The Ides of March”, e o telão já vai criando a atmosfera, com a animação mostrando a vizinhança de ruas escuras, incluindo a “22 Acacia Avenue”, já que o primeiro bloco do show homenageia o falecido primeiro vocalista Paul DiAnno – responsável pelo destaque da banda desde o primeiro álbum. Com o rufar dos tambores de Simon, estampidos e fogos, a nostálgica “Murders in the Rue Morgue” abre a noite, e é fantástico ouvi-la na voz de Bruce Dickinson. Em seguida, com sua intro icônica que fez muitos jovens se encantarem pelo baixo elétrico, vem a poderosa “Wrathchild”, e o refrão é berrado a plenos pulmões pela plateia. Bruce não economiza nos gritos e vocais mais rasgados que a primeira era da banda pede, incluindo os agudinhos em “Killers”; no meio da música, um enorme Eddie surge no palco, com cabelo desgrenhado, calça jeans rasgada, jaqueta de couro e machadinha na mão, tal qual na capa do álbum, e interage com os músicos, ora fazendo Janick Gears de vítima, ora tomando um ‘olé’ de Bruce, que passa por entre suas pernas.
O frontman finalmente saúda os fãs e dá as boas vindas à tour de 50 anos, dizendo que estão muito empolgados de poder trazê-la ao Brasil, lugar que guardam em seus corações – a declaração de amor faz a plateia interromper o diálogo para gritar seu nome e o deixa até um tanto encabulado. Retomando, ele anuncia a próxima canção como uma obra que veio da literatura, depois foi para o teatro, depois cinema, e mais importantemente, para a música no formato do Iron Maiden, obviamente se referindo a “Phantom of the Opera”. Sendo essa a primeira faixa progressiva da carreira, com alto grau de complexidade e diferentes passagens, é preciso que todos estejam muito alinhados, e nesse ponto, o patrão Steve Harris é incansável, seus dedos desconhecem cãibras. Em dado momento, em uma das inúmeras viradas, a bateria parece descompassar brevemente, mas a tempo de se corrigir antes da próxima mudança de andamento. Nota-se também que Dave Murray faz um solo de maneira mais fluida e livre.

Em seguida, vem um daqueles momentos em que quem não gosta de entrar no mosh deve ficar atento para se deslocar, caso necessário, pois não dá pra ficar parado em “The Number of the Beast”, que veio com muito fogo no palco e direito até a um verso alterado especialmente para os brasileiros (“I will possess your body and I’ll make Brazil f*cking burn”). A galera entoa rapidamente um “Ole-ole-ole Maiden” enquanto se recompõe e recupera o fôlego, e Bruce introduz uma canção que finalmente volta ao setlist 38 anos depois de seu lançamento: “acho que nunca a tocamos no seu maravilhoso país, e eu sei que muitos queriam ouvi-la”. Como se esse fato já não fosse o suficiente para emocionar até mesmo fãs que já viram diversos shows, ele segue: “Everyone should be able to have a dream. May all of your dreams be Infinite Dreams” (em tradução livre: “todos deveram ter a possibilidade de sonhar. Que todos os seus sonhos possam ser infinitos”) – palavras acolhedoras e oportunas, que arrancaram aplausos. Para a próxima, o telão nos transporta para o Egito e o frontman surge com sua icônica máscara de penas para o tema de “Powerslave”, uma das mais enérgicas da noite, que faz todo mundo pular; mudando o cenário para um enorme Eddie num tanque de guerra e o figurino para o clássico gorro + colete militar, vem “2 Minutes to Midnight”. Em ambas, o vocalista manda seu clássico bordão “scream for me” várias vezes, mantendo a energia no talo. Para se hidratar, Bruce pega seu cantil e brinca dizendo que ali deve ter algo “do bom” – os fãs começam a gritar ‘cachaça!’, mas ele nega, desapontado, afirmando que é apenas água, água… e ainda rebate alertando que é necessário ter cuidado ao consumir o destilado, pois a depender da quantidade, após ingeri-lo, você pode olhar para o céu e avistar um albatroz, e caso ele defeque em você, aí vinha uma dica do que não fazer – deixando claro para quem não tinha pego a dica até então o que estava prestes a acontecer.
Se na turnê anterior, a expectativa dos fãs era alta para que fizessem “Alexander The Great” ao vivo, desta vez, quem ocupa a vaga de música épica da noite é “Rime of the Ancient Mariner”. O poema romântico do século XVIII magistralmente musicado pela banda narra uma “história de marinheiro” cabulosa com começo, meio e fim, cujos atos refletem no andamento da canção. O telão faz os espectadores se sentirem a bordo do próprio navio à deriva, tendo que enfrentar as figuras fantasmagóricas que emergem do oceano, e com exceção dos efeitos sonoros como rangido de madeiras e a narração, toda a longa parte instrumental que cria o clima de terror é executada ao vivo. Sem dúvida, um feito que poucas bandas arriscariam. Voltando à terra firme, Bruce é forçado a correr para as montanhas em meio às labaredas com “Run to the Hills”, e é impossível não se impressionar com a boa forma e performance vocal do músico, que já passou dos 65 anos e venceu um câncer de garganta.
Prosseguindo, vem uma das faixas que melhor representam o estilo característico do Iron, com cavalgadas e dobradinhas de guitarra, refrões repetitivos e muitos “ô-ô-ôs” pra galera cantar junto, mas que talvez pudesse ter sido substituída por outra do álbum homônimo – “Seventh Son of a Seventh Son”; por ser um tanto quanto arrastada e já ter sido tocada aqui outras vezes, acabou servindo de pausa para alguns irem ao banheiro, até porque ninguém queria era perder a seguinte. Hora de um dos clichês que amamos, “The Trooper”, que vem com direito ao figurino, à bandeira do Reino Unido e ao Eddie espadachim percorrendo o palco. Durante os solos de guitarra, Bruce aproveita para sacudir também a bandeira do Brasil, levando os fãs à loucura. Com todo o respeito a Simon, nessa música foi difícil não sentir saudade do timbre e das marretadas características do Nicko…
Para encerrar o bloco, duas músicas que fizeram bom uso de cenografia e telão – em “Hallowed Be Thy Name”, Bruce inicia a música de dentro de uma jaula à esquerda, mas durante o instrumental, ela “explode” e um efeito de ilusão de ótica o faz percorrer um caminho iluminado com tochas, fugindo de um demônio até chegar ao alto de uma forca, que parece ser sua única saída. Após saltar e desaparecer, ele ressurge já liberto para cantar os versos finais. Na música que dá nome ao grupo, um Eddie gigantesco em 3D toma conta do plano de fundo, ameaçando atacar a qualquer momento. Janick também dá um show à parte rodopiando sem parar pelo palco e girando sua guitarra vigorosamente dezenas de vezes, pondo à prova a resistência de suas correias e seus manguitos rotadores – apesar dele fazer isso há anos, já houve acidentes em que a guitarra acabou sendo arremessada; felizmente, nessa noite tudo ocorreu bem. Com o Eddie “arrancando” os cabos, a banda se retira por alguns minutos.
O bis volta com “Aces High”, e o clássico discurso de Winston Churchill mais as imagens dos aviões de caça no telão não deixam dúvidas sobre qual batalha se trata a música, mas pra quem insiste em dizer que rock e política não se misturam, Bruce – que além de cantor, é historiador e piloto – faz questão de discordar e explicar, antes mesmo da canção acabar: “Aces High, Brasil! Fala sobre aqueles que lutaram na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas… e foder@m com eles! Nós nos lembraremos”. Mais uma vez, perfeitamente oportuno e necessário.
Não dá pra falar de show do Maiden e não pensar em “Fear of the Dark”. Fazer parte do coro de 50 mil vozes em uníssono, tornando-se apenas mais um dos pontinhos luminosos no estádio todo escuro durante a serenidade que precede o caos é uma sensação indescritível que todos deveriam experimentar pelo menos uma vez na vida. É para isso que gerações inteiras saíram de suas casas naquele domingo e tantas outras até repetirão a dose na terça-feira. Hinos são hinos, e “Wasted Years” já virou figurinha carimbada para selar noites como essa, que simbolizam exatamente o que fala a canção – viver e valorizar o momento presente. A essa altura do campeonato, provavelmente poucos se importaram ou sequer repararam, mas alguma coisa fez o som ficar meio ruim, com os backing vocals de Adrian Smith mais altos que os principais, e uma das três guitarras chiando – possivelmente a de Janick, que havia se enrolado nos cabos fazendo suas coreografias peculiares.
Bruce agradece aos fãs, deseja que todos retornem em segurança e promete vê-los novamente em breve, muito em breve. Os músicos também fazem questão de jogar diversos souvenirs para a plateia, incluindo até uma pele de bumbo; e finalmente, quando sobe o playback de “Always Look on the Bright Side of Life”, todos sabem que é hora de ir embora. Ficou claro que fazer o que se gosta é fundamental para a longevidade, pois se depender da energia desses caras, esses 50 anos foram apenas o começo.
