Abbath faz show impecável em São Paulo com missa negra

Texto: Metalphysicist
Fotos: André Tedim

A Vip Station foi o local escolhido para receber a Missa Negra de domingo, capitaneada pelo ícone do Black Metal, Abbath, o qual foi um dos fundadores da desgraceira da segunda escola, nos idos dos anos 90 – encabeçando o Immortal, ao lado de Demonaz, banda na qual permaneceu de 1990 a 2003, lançando álbuns icônicos como “Pure Holocaust”, “Battles in the North”, verdadeiros legados para as futuras gerações do ‘Metal do Bafomé’, do ‘capiroto’, do ‘coisa ruim’ – e outras denominações que são criadas para tirar onda das ‘hordas’ devotas a este estilo musical.

Por sinal, o senso de humor é uma das características de Olve Eikemo, sendo impagáveis as entrevistas do mano dando respostas hilárias e non sense a perguntas que lhe são feitas de forma séria. Por sinal, muito atencioso, logo após o término do show – de pouco mais de 1 hora de duração – ele não se importa em ficar por perto da muvuca de fãs, que queriam tirar fotos, autógrafos ao lado do legendário Abbath Doom Oculta. Ponto para ele, pois, quem é Majestade, sabe descer do trono para confraternizar com seu povo.

O show único de Abbath no Brasil faz parte da “Dread River Latin America”, perna da tour internacional da banda aqui no Hemisfério Sul. No evento de hoje também se apresentaram as bandas Sangue de Bode, Infamous Glory e Vitam et Mortem.

ABBATH

Já começo afirmando que Olve Eikemo está recuperado dos problemas com alcoolismo com os quais teve de lidar ao longo das tours do Abbath, em especial a de 2019, que passaria pelo Brasil, mas que foi cancelada após episódio triste em que o grande ídolo do Black Metal, de tão bêbado que estava, caiu no chão na terceira música do show na Argentina, pondo fim a apresentação e consequente cancelamento das datas previstas para a tour daquele ano.
Em 2023, recuperado e com a saúde em ordem, parece que ficou mais fácil para Olve incorporar Abbath, desde antes do show – enquanto modela o corpse paint em sua face, aprontando-se para a batalha que lhe compete comandar em cima do palco.


Pontualmente às 20h00 a banda Abbath toma o palco do Vip Station, envoltos em muito gelo seco que se mistura com a iluminação típica de shows de Black Metal, criando aquela ambiência sorumbática na porra toda. O som da casa estava absurdamente alto e preciso, dando ainda mais amplitude à atuação impecável da banda.

Abrindo o show com “Intro” – música do Immortal – a banda já mostra para que veio na sequência, com a execução irretocável de “Dream Cull”, faixa de seu último álbum “Dread Reaver” (2023), valendo mencionar que as faixas deste álbum funcionam muito bem ao vivo! Por sinal, a escolha da música “Dread Reaver” antes de emendar os clássicos do Immortal,In My Kingdom Cold” e “Beyond the North Waves”, foi a mais acertada possível, pois a faixa-título do último álbum do Abbath em nada deve aos clássicos que compôs nos anos 90.


Então, quem comprou ingresso imaginando que o cinquentão Abbath se recostaria nas suas glórias passadas, pode ter ficado um pouco decepcionado, pois o foco do show foi dedicado às músicas de seus três álbuns de estúdio – tais como “The Artifex”, “Fenrir Hunts”.
De todo modo, para os die hard, Doom Occulta Abbath também tocou sons de seu projeto I, o que me impressionou e também deixou claro que Abbath vive de suas glórias das 3 últimas décadas, tornando o Immortal mais uma banda na qual desfilou suas excelentes composições de Black Metal, nos anos 90.

O que dizer da banda ao vivo? Os caras não param de agitar e interagir com o vórtex pagão que se abre diante dos cerca de 250 bangers presentes, com o rolo compressor de blast beats e alterações de tempo caóticas – muito seguros nas mãos de Ukri Suvilehto (bateria) e Andreas Salbu (baixo) – além da parede de riffs e andamentos intrincados, chamando a atenção para os solos de guitarra de Ole André Farstad.
Abbath é uma persona imponente, que busca inspiração do mal que habita suas próprias entranhas, para se tornar um líder de legiões de fãs de Black Metal ao redor do mundo. Ora ajoelha próximo da plateia, para os fãs tirarem suas ‘selfies’, ora anda de um lado e do outro do palco e, quando toma a frente do microfone com sua guitarra em punho, torna-se um frontman imbatível (alguns dizem que Abbath é o Lemmy do BM, pode ser…).


Que Abbath retorne ao Brasil com a vitalidade que mostrou no show de hoje para visitar suas fieis hordas sulamericanas, uma vez que o Immortal influenciou fortemente bandas da América Latina mais do que o resto do mundo pode imaginar.


Para saber como dá a influência do Black Metal norueguês por aqui, leia as resenhas dos shows de abertura a seguir:

Sangue de Bode

A banda, formada por Verme (vocal e guitarra), Nekrose (guitarra), (baixo) e Sinuê (bateria), foi responsável por abrir os trabalhos do Culto Pagão que se instaurou na cidade de São Paulo neste domingo, a partir das 16h30.
O Sangue de Bode canta em português, com temas mais relacionados à expulsão de toda a raiva e inconformismo niilista a respeito do mundo que nos cerca, como em “Messias de Merda” e “O Homem que Virou Cadáver”.

Musicalmente, não dá para definir melhor o estilo musical da banda tal como o fez um fã do Sangue de Bode, no documentário da tour da banda, disponível no Youtube: “Sangue de Bode não é sarava, é demônio interno ; aquele demônio desgraça que quer acabar com sua vida ; é um horror, é maravilhoso”.
Melhor forma de abrir os trabalhos pagãos de domingo não haveria. Sim, o vocal deixa claro do começo ao fim do show que não se importa com a plateia, o que é compreensível, já que o maluco tá possuído, em transe com as letras que canta, como num tipo de apresentação de Poesia Experimental malévola.

INFAMOUS GLORY

Os veteranos do Infamous Glory vêm a seguir, contando com Leandro “Coroner” D. (vocal), Kexo (vocal e guitarra), André Neil (guitarra), Tonhão (baixo) e G Piza (bateria), dão continuidade à missa negra. A banda é mais extrema, tipo um Blackened Death Metal muito trampado e com destaque para o rolo compressor em forma de baterista que é G Piza ao vivo.


Claro que os outros integrantes não deixam nada a dever em seus respectivos instrumentos, com o som muito bem equalizado e entrosamento da banda, especialmente nas guitarras gêmeas da dupla Leandro “Coroner” e Kexo, em músicas como “The Last Spell” e “Sovereign Of Darkness”.


Aproveitando a boa receptividade do público, tocam dois sons sangue nos olhos, que farão parte do álbum a ser lançado ano que vem, “Algor Mortis”. Se você é fã de Krisiun e congêneres, não deixe de acompanhar o Infamous Glory no Spotify.

Vitam Et Mortem

Diria que a banda da Colômbia Vitam et Mortem só não roubou o show deste domingo, porque competir com Abbath está fora de questão. E, na verdade, eles não tentaram superar nenhuma outra banda da noite – apenas fizeram questão de trazer para o palco um exímio show de Dark Folk Metal, mesclando elementos do Black Metal europeu a temas e cadências musicais próprias da américa latina pré-colombiana.


Por sinal o próprio Abbath, em certa entrevista, diz que o Immortal toca Winter Metal, mais propriamente. E ele está certo, porque as músicas da banda dialogam com o meio-ambiente e o território terrestre em que habitam – a fria floresta do Sul da Europa.
O mesmo ocorre com Vitam Et Mortem, formada, por Julián David Trujillo Moreno “Thánatos” – (guitarra/voz), Julian Felipe Rodriguez “Haborym” (bateria e percussão), Irkalla (baixo) e Maldito (guitarra), que usa a verve sorumbática do Metal escandinavo para incorporá-la com a terra que habitam – A Rain Forest – também conhecida como Floresta Amazônica.

Os integrantes incorporam uma indumentária folk que reafirma sua proposta musical e cultural, especialmente quando trazem ao placo instrumentos de sopro e percussões típicos de sua região, ao longo do show feroz, desfilando músicas muito bem compostas e arranjadas como “Barquero de Los Muertos”, “La Danza de Los Gallinazos” e “Oro y Dolor”.
Ta aí uma banda que eu quero assistir ao vivo novamente e que me fez começar a explorar as excelentes bandas de Black Metal da colômbia, tais como Templa in cinera, Soldados del Infierno, entre outras.
Fica a dica para os fãs de Black Metal mostrarem que são troozão mesmo entrando na casa de espetáculo desde a apresentação da primeira banda, invocando negatividade e vigor para as bandas que se dedicam e gastam dinheiro do próprio bolso, para fazer ecoar ‘a palavra’ de Mega Therion pelos quatro cantos do Globo Terrestre.

Agradecimentos para a Confere Rock, que me propiciou o ingresso na missa negra acima descrita, bem como para todos os responsáveis pela produção, que atuou de forma competente e profissional, ao lado dos colaboradores da Vip Station.

Agradecimentos ao Caveira Velha Produções pelo credenciamento! 

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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