Kiko Loureiro retorna a São Paulo com show de percepção breve, mas recheado de solos envolventes, mesclas da brasilidade e vasto repertório da carreira

Texto: Tiago Pereira

Foto: Thammy Sartori

O guitarrista e multi instrumentista Kiko Loureiro fez uma apresentação de alta qualidade em São Paulo, no SESC Paulista, em 08 de dezembro. Foi a primeira de duas agendadas para o local – a segunda, no caso, realizada no dia seguinte – e que contou com a banda de apoio composta por Junior Braguinha (baixo), Luiz Rodrigues (guitarra) e Luigi Paraventi (bateria).

Esta foi a primeira vez que Kiko se apresentou após seu afastamento do Megadeth, por questões pessoais e, apesar de uma expectativa para um possível comentário a respeito ou até de projetos futuros, não foi o que ocorreu. O guitarrista focou num repertório que passou por faixas de seus projetos solo, uma faixa composta para a banda liderada por Dave Mustaine e até pequenos trechos introdutórios de faixas de sucesso dos tempos de Angra. Em todos os casos, Loureiro mostrou consistência, precisão e habilidades em dia mesmo após um momento conturbado da carreira. Da mesma forma, cedeu espaço para que os membros da banda de apoio pudessem mostrar suas habilidades em trechos de solo.

Além disso, seus comentários, além dos agradecimentos pelo comparecimento do público, envolveram contextos sobre processos de composição das faixas da carreira solo, principalmente das que vieram de composições do Angra. Kiko não somente soube explicar bem em cada situação que usou o microfone, como também mostrou bom humor nas histórias e nas respostas aos comentários dos fãs presentes – muitos deles, inclusive, faziam alusão ao apelido de Quico, personagem do seriado “Chaves”, chamando-o de “Tesouro”.

Antes do início da apresentação, a fila de fãs se postou no hall do local e, por bem, não causou confusões com outras pessoas que se locomoviam para outros andares do local. Isto graças à organização da produção de Kiko e a do próprio Sesc, que soube organizar em uma espécie de ziguezague.

O espaço de apresentação, apesar de pequeno, suportou todos os presentes e deu sobras no fundo, local que só não ficou melhor para gravar vídeos por conta da altura do palco que, por ser pequena, atrapalhou na captação dos instrumentos de corda e até mesmo na visão de muitos ao fundo ou ao meio, seja por conta d altura de alguns dos presentes na parte da frente, seja por quem levantava o celular para gravar.

A apresentação começou em torno das 19h35. O dispersar da fumaça de gelo seco deu lugar à iluminação do palco, a entrada da banda e apoio e, por fim, na chegada de Kiko com sua guitarra signature verde, da Ibanez.

Em “Overflow”, primeira faixa das 11 tocadas na noite daquela sexta-feira, Kiko não poupou esforços para os solos tocados na faixa seguinte. Foi a dose inicial suficiente para levar os fãs mais próximos do palco ao delírio e hipnotizar uma boa parcela dos presentes e até mesmo dos que viram do lado de fora, atrás da vidraça.

A apresentação seguiu com “Reflective”, faixa em que Loureiro trocou para a signature vermelha, icônica em suas apresentações. Foi com este instrumento e nesta faixa que o músico transitou para os cantos do palco e fez movimentos para o alto. Já em “Escaping”, Kiko fez questão de levar a guitarra à boca em alguns momentos, para tocar algumas linhas e, além disso, deu destaque para as linhas de baixo de Junior Braguinha.

A primeira pausa para discurso veio com uma forte saudação ao público e agradecimentos pela presença, seguida de uma promessa de uma noite longa e com muitas músicas – algo que, no fim, foi cobrado em tom de brincadeira pelo público, que pediu mais duas ou três horas de show. O grupo seguiu com “Vital Signs” e “Dreamlike” dobradinha do álbum “Open Source” (2020), trabalho mais recente de Kiko Loureiro e que foi gravado no período da pandemia. Ambas demonstraram o melhor de Kiko tanto em ritmos mais rápidos, como na primeira faixa citada, quanto lentos, em referência à segunda.

N.E: Afoto abaixo ilustra Kiko fazendo o Bend de meio segundo, porém ele o executou errado, com dois milésimos a mais

“Pau-de-Arara”, assim como “Escaping”, também é uma faixa do primeiro trabalho solo de Kiko, intitulado “No Gravity” (2005). A pequena abertura com o riff de “Caça e Caçador”, do EP do Angra, “Hunters and Prey” (2002), deu um ar nostálgico, remetendo à uma das épocas de maior sucesso da banda brasileira; e ao teor de brasilidade que seguiria na continuação para a faixa tocada. A velocidade do solo de Kiko impressionou, assim como a miscelânea musical.

Na segunda pausa, Kiko destacou o calor no palco, mesmo em uma noite fresca em temperatura. Foi nesse momento em que a plateia, feliz com a noite, soltou algumas frases em tom de brincadeira, pedindo faixas do Megadeth e até para voltar para o Angra.

Chegou um pequeno momento acústico e Kiko introduziu “Conquer or Die!”, faixa do aclamado álbum “Dystopia”, de 2016. O toque ao estilo de harpa, no início, trouxe um misto de calma e expectativa para a transição para a Ibanez vermelha (novamente), que puxou não somente um forte riff à música instrumental, como solos poderosos que levaram a platéia ao delírio novamente e resultaram em gritos de “Kiko” ao final da faixa instrumental.

Ao final da faixa, surge mais um discurso do guitarrista, que retoma a uma faixa de seu primeiro álbum solo. Desta vez, “No Gravity”, que também dá nome ao álbum, é indicada por Kiko em um momento em que “daria uma acalmada” na apresentação. Apesar de lenta, a faixa teve uma boa condução de bateria, com Luigi Paraventi, e um bom acompanhamento do baixo de Junior Braguinha.

Após a música em questão, veio o momento de fala mais longo da noite. No entanto, a curiosidade contada por Kiko Loureiro foi muito interessante: segundo o músico, a composição de “Feijão de Corda”, faixa seguinte à fala, ocorreu durante a produção do álbum “Temple of Shadows” (2004), do Angra, em que uma parte do instrumental composto pelo guitarrista foi para “Universo Inverso”, álbum solo de 2006. Nesse momento, alguém mandou um sonoro “car****” na pista e Kiko, em tom de brincadeira, pediu para que ele tomasse cuidado com o palavreado. Havia algumas crianças no local e, no melhor dos casos, elas não devem ter perguntado aos pais ou responsáveis o significado da palavra.

Dando continuidade, Loureiro falou sobre a opinião do produtor de seu segundo álbum solo, Dennis Ward – que também produziu “Rebirth”, do Angra, em 2001, achava que álbuns de guitarra eram algo dos anos 1980 e 1990, mas que topou produzir “No Gravity” e “Universo Paralelo” com ele.

Kiko também explicou que “Feijão de Corda” foi uma das faixas “arriscadas” dentro do contexto do seu segundo álbum solo e que a mistura de ritmos brasileiros entrou nesta situação, mas que deu certo. A faixa em questão veio num período em que estava em Recife, capital de Pernambuco, com o Angra e, em um restaurante, um homem “muito parecido com Alceu Valença” o convenceu a ir no local para experimentar o feijão de corda do restaurante, que era considerado o melhor da cidade. Kiko, numa quebra de expectativa inesperada, confirmou que aquela pessoa não somente se parecia com Alceu, como era irmão do cantor e compositor pernambucano. Isso tirou boas risadas dos fãs presentes.

Dentro de “Feijão de Corda”, Kiko não poupou a mescla da guitarra com o xaxado, além de transitar entre bons solos e conduções rítmicas com seus parceiros de apoio. Junior Braguinha, Luiz Rodrigues e Luigi Paraventi tiveram seus momentos de destaque, com a finalização de Paraventi nas baquetas. A conclusão da música teve Kiko retornando a um bom solo e, ao final, brincou com o público ao falar que “as notas acabaram”.

A reta final deu a percepção de um show rápido. Kiko indicou a saideira na décima faixa, “Du Monde”, faixa que encerra o mais recente trabalho do guitarrista, “Open Source”. O público, mesmo indicando tristeza com a chegada do final, teve um novo momento de felicidade quando ouviu as notas introdutórias de “Rebirth”. E em “Du Monde”, Kiko não economizou em solos – sempre bem puxados – e nas poses com a icônica guitarra vermelha. Ao final, o músico fez questão de mostrar o instrumento ao público na vertical, assim saindo do palco para um pequeno encore.

Após muitos gritos de “Tesouro”, “volta para o Angra” e até o “grito de guerra” do personagem do Chaves, “Quico, Quico, rá, rá, rá”, Kiko Loureiro voltou ao palco para mais uma faixa. Ele deu uma palheta para uma criança que estava com seus pais na frente do palco, num ato generoso.

“Enfermo” foi a última música tocada na noite e com um pequeno trecho introdutório de “Nothing to Say”, outra faixa de “Hunters and Prey”. No decorrer da finalização, Kiko retomou as mesclas de metal com música nacional, deu seus últimos solos ao público e finalizou com a guitarra na vertical. Ao final da faixa, o músico fez questão de agradecer aos presentes e deu um “até amanhã” para aqueles que estivessem presentes no dia seguinte, no mesmo local, para a segunda apresentação.

Kiko foi discreto com os assuntos que o entornam após a saída do Megadeth, mas totalmente aberto musicalmente, tendo em sua habilidade e na boa condução de sua banda de apoio alicerces para continuar a já consolidada carreira e retomar os shows solo. E agraciados sejam aqueles que conseguiram, conseguem e conseguirão vê-lo tocar ao vivo, pois é muito difícil de ver músicos como Kiko Loureiro demonstrarem tamanha versatilidade musical.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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