Coberturas

Helloween celebra 40 anos de carreira e divulga novo álbum com casa lotada em SP

Texto: Daniela Reigas (@danikiedis)
Fotos: Gustavo Diakov
(@xchicanox)

Pioneiros do gênero Power Metal, os alemães do Helloween dispensam grandes introduções, pois sua relação com o Brasil já é longeva e íntima – desde a primeira visita em 1996 e através de diferentes formações, já foram mais de 50 shows no país, marcando presença em mais de 10 cidades. Alguns de seus integrantes também já vieram separadamente em turnês solo, como o ex-guitarrista Roland Grapow, ou com suas outras bandas, como o cantor Michael Kiske com o Unisonic e o guitarrista e fundador Kai Hansen com o Gamma Ray. Sendo assim, a turnê que comemora os 40 anos de carreira e também promove o mais recente trabalho – “Giants & Monsters”, lançado há cerca de um ano – não poderia deixar de contemplar os brasileiros e contou com duas apresentações, uma em Porto Alegre e outra em São Paulo, simplesmente a última desse ano, encerrando o giro pela América Latina.

O local escolhido foi uma casa inaugurada há pouco mais de um ano na capital paulista, o Suhai Music Hall, e com lotação de 9 mil espectadores, os ingressos se esgotaram rapidamente. Portanto, no último sábado, 19/09, desde cedo já havia fãs circulando pelo shopping anexo à casa, esperando ansiosamente pela abertura dos portões. Pontualmente, às 21h, o playback de “Let Me Entertain You”, de Robin Williams, colocava fim à espera; o logotipo da banda surgiu iluminado sobre as cortinas, que logo caíram para dar lugar ao imenso telão de fundo de palco que torna a experiência imersiva. Uma animação com as capas de todos os álbuns vai passando enquanto os músicos, na já consolidada formação “Pumpkins United”, assumem suas posições: Daniel Löble na enorme bateria com 4 bumbos estampados com abóboras; à sua esquerda, na plataforma elevada, Markus Grosskopf no baixo, e abaixo, Sascha Gerstner na guitarra; na plataforma à direita, Kai Hansen e Michael Weikath, também munidos de guitarras, e abrindo o set com a paulada “March of Time”, surgem finalmente Michael Kiske pela esquerda e Andi Deris pela direita. O palco conta ainda com uma extensão central, que permite que os artistas se aproximem ao máximo dos fãs de acordo com o momento  da música. O som nessa primeira faixa entra um pouco ‘embolado’, especialmente os vocais, que chegam a ser abafados pelo coro da empolgada plateia, mas depois melhora. 

O misterioso personagem encapuzado, com galáxias no lugar do rosto – com o tema do último álbum – surge imponente no telão como uma espécie de narrador e traz uma mensagem específica para os “pumpkinheads” brasileiros, agradecendo sua lealdade durante todas essas décadas. Sem dúvidas, um toque especial pensado com muito carinho e que arranca aplausos estrondosos do público. Dando continuidade, a epopeia “The King for a 1000 Years”, com seus quase 14 minutos, demonstra muito bem o excelente entrosamento entre os membros, que visivelmente se divertem fazendo o que fazem – Grosskopf não poupa caretas com a língua de fora o tempo todo, Gerstner e Hansen interagem bastante entre si e com a plateia, e até mesmo Weikath, que aparenta ser o mais sério, acena para os fãs mais próximos do palco entre um solo e outro. Ao final da longa faixa, ambos frontmen cumprimentam a plateia e Kiske afirma que são muito sortudos em poder encerrar essa perna da turnê em São Paulo.

Deris diz que nesses meses todos de excursão tiveram audiências incríveis e muito sonoras, mas desafia os paulistanos a bater o recorde – “vou até tapar meus ouvidos”. Um primeiro grito da plateia não satisfaz Kiske, que incita nova tentativa, e essa, sim, faz estremecer o Suhai. “Respeitosamente, alto pra car@lho!”, exclama Deris. Kiske então chama pra perto de si o homem que escreveu o álbum de sua estreia no grupo e faz algumas gracinhas com Hansen enquanto ele sola em sua Flying V vermelha. A banda se junta a ele numa breve releitura da peça clássica “In the Hall of the Mountain King”, tema frequentemente associado a vilões em filmes e animações de terror, e a plateia acompanha cantando a melodia. 

Com uma explosão de serpentinas sobre a pista, chega o primeiro megahit da noite, “Future World”. Certamente um dos pontos altos, com os 3 cantores se revezando na execução dos vocais super agudos – estratégia que permite que todos mantenham o fôlego e entreguem excelência – e a famosa coreografia sincronizada dos 4 cavaleiros das cordas. A música é estendida propositalmente para incluir um refrão cantado unicamente pela plateia. Em seguida, o setlist intercala as faixas novas com outros clássicos, para manter o engajamento no talo. “This is Tokyo”, que foi o primeiro single, não empolga tanto, mas ainda assim rende um “Muito obrigado” de Deris pela recepção. Uma trinca de respeito vem a seguir para que cada vocalista tenha seu momento solo, e para fazer o público se perguntar qual será o treino de perna do baterista Dani Löble para aguentar tanto pedal duplo: “We Burn”, “Twilight of the Gods” e “Ride the Sky”. Na primeira, o destaque é para Deris; na segunda, para Kiske – e também para o cenário de imensos arcades neon, bem típico dos anos 80 – e, na terceira, para Hansen e mais uma aparição do narrador encapuzado, contando como o mal foi derrotado certa vez, mas que não será a última, convocando assim todos os fãs para tomarem as rédeas do céu. Explosões de fumaça deixaram o refrão mais poderoso ainda.

Hora de acalmar um pouco os ânimos e apreciar a nova power ballad “Into the Sun”, cuja graciosidade foi enfatizada pelo eclipse solar no telão, no qual a lua ia lentamente saindo da frente do astro-rei; o belo solo é executado em harmonia por Gerstner e Weikath ao centro do palco. Após os aplausos, os paulistanos foram surpreendidos com uma canção que até então não havia figurado na turnê, e segundo Deris, uma de suas favoritas – “I’m Alive”, e talvez por isso, algo inusitado aconteceu: Kiske se atrapalhou e retomou o verso da ponte antes de Hansen tocar o último trecho do solo. Percebendo imediatamente o equívoco, o cantor ri de si mesmo e faz um gesto de constrangimento, levando a mão espalmada ao rosto. Isso não compromete de maneira alguma a performance, pelo contrário, reforça que quem está ali é um ser humano, ‘ao vivo e a cores’, com sentimentos e emoções, algo que está cada vez mais ameaçado de extinção em espetáculos audiovisuais. Mais um hit já vem na sequência, agora da fase Deris – “Hey Lord”, que sempre faz o público cantar junto e bater palmas.

“Universe (Gravity for Hearts)” é executada com seu lyric video ao fundo, e os painéis laterais estendem o fundo estrelado, transportando os espectadores para uma viagem intergalática. Até mesmo a guitarra branca de Gerstner se assemelha a um objeto espacial. Sem dúvidas, foi a faixa nova que teve a melhor participação do público, e Kiske foi impecável na execução de seus agudos estratosféricos. Os holofotes então se voltam todos para Dani Löble, que, por 5 minutos, tem toda a atenção da plateia, num solo em que exibe sua inacreditável resistência muscular. Sem descanso, já emenda o hino “I Want Out”. Todos os outros músicos vêm ao centro do palco para deleite dos fãs, e uma grande explosão de confetes encerra esse bloco, para dar lugar à ‘calmaria antes da tormenta’, como disse Deris. Ele e Kiske, munidos apenas de 2 banquinhos e um violão, apresentam um mini acústico, começando com uma paródia bem humorada de “Suspicious Minds” (Elvis Presley), passando por um trechinho de “Yesterday” (Beatles), cantada praticamente apenas pela plateia e impressionando Kiske, e culminando na melancólica “A Tale That Wasn’t Right”. Nessa última, Deris assume o violão e pede aos fãs para acenderem as lanternas de seus celulares. Um momento muito emocionante, principalmente quando no verso “Thanks to you, my dear old friend”, Kiske apoia a mão no ombro de Deris e novamente transparece sentimentos reais, mostrando que a união entre os (ex) membros da banda não é apenas puro marketing. Ambos enaltecem o compositor da bela canção, que vem à frente e os junta para o solo: Michael Weikath.

Voltando ao layout de banda completa, Deris assusta a plateia ao anunciar ‘a última música’… [pausa dramática] …do trabalho mais recente a ser apresentada nessa noite – “A Little Is a Little Too Much”, com seu refrão simples e cativante, algo no qual a banda é proficiente. Uma breve pausa pra hidratação e o pai do Power Metal, Kai Hansen, vem conversar com o público, reafirmando que é sempre um prazer retornar à cidade que amam e que sempre lhes proporciona ótimos momentos. O músico chega a propor um ‘desafio’ dizendo que quem conseguisse trazer-lhe uma caipirinha ganharia acesso ao backstage – mas para a tristeza de alguns, era apenas uma brincadeira. O que ele queria mesmo era reger a plateia como um coral, fazendo seus “yeah-yos” antes de voltar aos primórdios com a rápida e agressiva “Heavy Metal (Is the Law)” – sua linha de baixo é tão marcante que nem mesmo as 3 guitarras conseguem ofuscar Grosskopf. Aproximando-se do final, o narrador encapuzado ressurge pra dizer que não poderia ir embora sem revisitar as maiores obras-primas dessa jornada e conta sobre quando foi conjurado pra defender seus criadores das hordas do mal em uma longínqua noite de halloween, introduzindo assim a canção quase homônima à banda e que melhor representa seu trabalho. Em meio às animações, agora as imagens dos músicos também são projetadas no telão principal, pra que todos possa testemunhar em detalhes essa formação épica tocando a canção mais emblemática da banda. 

Nos minutos de intervalo que antecedem o bis, os fãs entoam o coro “happy happy halloween”, que logo é silenciado por uma introdução desenhando 40 [anos] no telão, e sem delongas, uma enorme águia toma conta do cenário. Em “Eagle Fly Free”, algum problema técnico, possivelmente um delay no ‘click’ da bateria ou falha no retorno in-ear de Kiske causa um leve descompasso na execução da música, levando o vocalista a ficar alguns instantes apreensivo e em silêncio para acertar seu andamento – mas afinal, quem sabe, faz ao vivo.

Deris assume o microfone para “Power” e é acompanhado quase que em uníssono pelos fãs, que também não desapontam durante a pausa estratégica para o “ô-ô-ô-ô” seguindo a melodia do riff. O encerramento da turnê coincidiu com o aniversário do tour manager da banda, “AC” Dreffein, a quem Kiske então convoca ao palco para receber a homenagem, com direito a bolo, velinhas e “happy birthday to you”; Kai mostra que sabe celebrar tal qual um bom brasileiro faria e aparece com a sua desejada caipirinha em mãos. Para fechar a noite em ritmo de festa, “Dr. Stein” transforma o Suhai numa grande micareta, com muita dancinha – até mesmo das ‘múmias reanimadas’ no telão – e enormes bolas laranjas arremessadas na pista premium, que eram empurradas ao palco pelos fãs e chutadas, estapeadas e até cabeceadas de volta pelos músicos. O derradeiro adeus se dá com o trechinho final de “Keeper of the Seven Keys”, extraindo as últimas energias dos 2 vocalistas, que se vêem cansados, mas extasiados. Enquanto Dani dá as últimas esmurradas na bateria, seus colegas distribuem palhetas e Gerstner aceita uma bandeira do Brasil customizada com a logo da banda, sendo ovacionado. 

Escolhas de setlist nunca agradam a 100% dos fãs, e muitos sentiram falta de “In the Middle of a Heartbeat” e ‘Hell Was Made in Heaven”, que haviam sido incluídas dias antes em Porto Alegre – no entanto, pensando naqueles que acompanham fielmente a banda em todos os shows do país, as substituições são importantes e conferem dinâmica às apresentações. 

Sem sombra de dúvidas, férias merecidas para os alemães veteranos do “metal espadinha”, que mais uma vez entregaram diversão, técnica e muita emoção para diferentes gerações de público. 

Setlist:

March of Time

The King for a 1000 Years

Future World

This Is Tokyo

We Burn

Twilight of the Gods

Ride the Sky

Into the Sun

I’m Alive

Hey Lord!

Universe (Gravity for Hearts)

Solo de bateria

I Want Out

A Tale That Wasn’t Right

A Little Is a Little Too Much

Heavy Metal (Is the Law)

Halloween

Eagle Fly Free

Power

Dr. Stein

Keeper of the Seven Keys (trecho)

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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