Masters of Voices – reunião de vocalistas icônicos e músicos brasileiros entrega noite de muitos hits e carisma em SP
Texto: Daniela Reigas
Fotos: André Tedim
entre as incontáveis bandas que existem sob o guarda-chuva que engloba tanto o rock quanto o metal, existem sempre aqueles que se destacam, trazendo em seu currículo passagens por diversos projetos e marcando gerações através de seus hits emblemáticos.
Enquanto alguns não “se bicam” por N razões, outros adoram fazer colaborações e excursionar juntos – e um exemplo famoso desse tipo de parceria é a dupla Eric Martin (Mr. Big) e Jeff Scott Soto (Talisman, Journey, Yngwie Malmsteen), que idealizaram a turnê Masters of Voices – concretizada com a ajuda do produtor Paulo Baron, que escalou Edu Falaschi (Angra, Almah) e Tim “Ripper” Owens (Judas Priest/KK’s Priest/Iced Earth) para compor o line-up, juntamente a um time já muito consagrado de brasileiros com carreira internacional que também estão habituados a trabalhar juntos. São eles, Felipe Andreoli (Angra) que assume o baixo, as guitarras ficam com Marcelo Barbosa (Angra, Almah) e Leo Mancini (Tempestt, Spektra, Shaman), e a bateria é de Edu Cominato (Mr. Big, Soto, Spektra).
A abertura com Velvet Chains de volta ao Brasil
A turnê passa por várias cidades na América Latina, e no último sábado (18/07), foi a vez da capital paulista receber o grupo, no Tokyo Marine Hall. Quem chegou antes das 21h pôde ainda conferir a abertura feita pelos norteamericanos do Velvet Chains, que promove seu novo EP “How The Story Ends”.


A banda já havia tocado no país anteriormente como suporte para Slash and the Conspirators e Stone Temple Pilots, com as quais seu estilo está mais alinhado. Fundada em 2018 pelo baixista Nils Goldschmidt, traz um som pesado e moderno, que mescla elementos do heavy e do alternativo. A apresentação foi bastante performática, com destaque para o guitarrista Von Boldt, usando seu chapéu estiloso e uma bandeira do Brasil amarrada na cintura.


Completam o line-up Philip Paulsen na outra guitarra, Jason Hope na bateria, e Chaz Terra no vocal. O público ainda era tímido e parecia pouco familiarizado com as músicas, já que a atração principal da noite traria um conteúdo mais ‘das antigas’ – mas ainda assim, respeitou e aplaudiu os músicos da cena mais recente e até engajou no refrão de “Dead in the Head”. Ao final, Chaz agradece ao apoio da plateia e diz que ama os fãs brasileiros.
Os Mestres das Vozes em ação
Pontualmente às 22h então, vão adentrando o palco os instrumentistas brasileiros e o primeiro cantor do quarteto a fazer seu bloco, Eric Martin. O setlist da turnê já havia sido divulgado em redes sociais, então nesse ponto não havia muita especulação. “Daddy, Brother, Lover, Little Boy” abre o set com energia mas com a voz de Eric um pouco baixa, o que se corrige já na faixa seguinte – a power ballad “Take Cover”. Um fã da plateia grita “Eric, I love you!” e o cantor agradece e ri da situação – sendo um representante da cena hard rock, certamente está muito mais acostumado a receber tais elogios do público feminino.


O frontman faz um trocadilho com o próprio nome do projeto e diz que na verdade, eles são os “Bastards of Voices”, e assim, mais um hit do Mr. Big é executado, “Green-Tinted Sixties Mind”. Antes de iniciar a próxima faixa, enquanto Eric prepara seu violão, Marcelo Barbosa faz um solo com pegada “flamenca” e Eric o chama de exibido, em tom de brincadeira. Para testar a afinação de seu violão, Eric demonstra que também manja do instrumento e manda uns trechos de Led Zeppelin e Lynyrd Skynyrd, emendando com a clássica balada “Wild World”, uma das favoritas do público brasileiro, já que temos até uma versão que bombou nos anos 2000 pela dupla Pepê & Neném (que virou “Nada Me Faz Esquecer“).

Mudando radicalmente para a super técnica “Colorado Bulldog”, Eric elogia as habilidades de Felipe Andreoli, segundo ele, o “cabeça” (“big brain”) do grupo. Os outros integrantes também recebem elogios – Leo Mancini sendo chamado de “meu favorito – o cara já tocou com todo mundo” e Edu Cominato exaltado tanto como profissional como quanto pessoa. Hora de mais uma balada, “To Be With You”, onde Felipe, Edu e Leo capricham nos backing vocals e a galera não desaponta no coro do refrão – até mesmo o mezanino se levanta e Eric se surpreende – “olha, tem gente lá em cima!”.

Encerrando seu bloco com mais uma das pesadas, Eric vai para para perto da bateria para acompanhar Edu bem de pertinho em “Addicted to That Rush”.
Anunciado pelo veterano como um ‘jovem homem de vocal potente’ (apesar de ser apenas 7 anos mais novo que Eric), Tim “Ripper” Owens é o próximo da lista e já chega sendo aclamado pela plateia. A intro “The Hellion” cria o clima para “Electric Eye” e sem tempo pra retomar o fôlego, já emendam com a densa “Burn in Hell”, que chega com os dois pés no peito.

Tim mostra que os vocais extremamente agudos e rasgados estão em dia. Agradecendo sua recepção calorosa e comentando sobre o projeto ser uma “all star band”, diz que é a primeira vez desde que ele saiu do Judas Priest em que os músicos são mais famosos do que ele. E para provar o mérito dos mesmos, a matadora “Painkiller” é muito bem executada, incluindo os famosos arpejos dificílimos imortalizados por Glenn Tipton e interpretados por Marcelo. Sem dúvida, a faixa mais pesada da noite; no entanto, não se abrem as famosas rodas na pista – o público fica mais tranquilo apenas contemplando e batendo cabeça sem se deslocar muito.


Mais um hino do Judas, “Breaking the Law” é executado e ao final, outro fã empolgado faz uma declaração de amor para o cantor, que reage tão admirado quanto seu antecessor e agradece o carinho. O bloco se encerrou com duas covers – “Highway to Hell”, do AC/DC, a qual foi incluída apenas por diversão, segundo ele, mas fez todo mundo pular; e “Heaven and Hell”, do Black Sabbath, uma vez que Dio foi sua maior influência para ter escolhido a carreira musical.

Ripper comanda a participação da plateia nos corais da intro e exibe seu alcance vocal incrível ao longo da performance. Marcelo sola com liberdade criativa durante a ponte antes da parte mais agitada da música, cujo segundo solo fica a cargo de Leo, enquanto Felipe segura a base consistentemente. Em seguida, o próximo cantor já vai adentrando o palco e cumprimentando Tim e seus velhos conhecidos: é a vez de Edu Falaschi apresentar seus hits.
Praticamente sem intervalo, já entra o VS do coral icônico de “Acid Rain”. Edu se esforça para sustentar as notas altíssimas e longas – o cantor traja um cachecol e não se movimenta tanto pelo palco como de costume, parando para se hidratar várias vezes e saindo em direção ao backstage durante as partes instrumentais. Em dado momento, o cantor faz um gesto apontando para a garganta, indicando que possivelmente estivesse mesmo um pouco debilitado no dia.


“Millennium Sun” vem em seguida, com sua bela intro, que sempre rende aplausos, e após seu final explosivo, Edu finalmente cumprimenta os paulistanos, diz estar muito honrado e feliz por dividir o palco com alguns de seus ídolos, e ainda brinca dizendo que dessa vez não é o mais velho da tropa. Continuando, anuncia a famosa balada que furou a bolha do metal, e todos cantam o refrão de “Bleeding Heart”, alguns sobrepondo com a versão nacional regravada pelo grupo de forró Calcinha Preta. Voltando para a especialidade do Angra com “Waiting Silence”, Felipe e Leo também fazem bonito nos backings, enriquecendo a música.

No hino “Rebirth”, Edu encontra o tom mais adequado e entrega uma performance emocionante e de alta qualidade, sendo aclamado ao final. “Vocês não fazem ideia de quanto eu amo vocês. Logo tem mais hein!” responde o frontman, se referindo ao show solo que fará em breve no mesmo local para divulgar seu mais novo álbum, Mi’raj. Para encerrar, a linda “Heroes of Sand” também encanta o público, sendo finalizada com um grito potente de Edu antes de dar lugar ao último frontman da noite – anunciado por ele como “a lenda”: Jeff Scott Soto.
Sem dúvidas, o co-anfitrião foi quem roubou a cena e estava mais à vontade nessa noite. Iniciando seu bloco com “One Love”, já chegou dançando e agitando com seu pedestal de LED – o artista não para quieto um só minuto. A boa forma não se restringe apenas ao físico, mas também à voz.

Em bom e alto português, o cantor, que vem ao Brasil com frequência, saúda os fãs com “Tudo bem, SP? Vocês são fod@!” e, ciente do meme “dêem um CPF pra esse homem”, diz que é bom estar de volta ao ‘lar’, admitindo que quer morar aqui. Seguindo com “Separate Ways”, celebra e relembra os tempos em que teve a honra de integrar brevemente o Journey para cumprir uma turnê. Dando continuidade, a surpresa da noite, uma homenagem para Ozzy Osbourne, cujo primeiro aniversário de falecimento se daria dali alguns dias. De acordo com Jeff, eles não iam incluir essa faixa pois houve apenas um ensaio e ele havia acabado de aprender a música, mas não achava justo deixar passar em branco, então pediu a colaboração da plateia para acompanhá-lo em “Mama, I’m Coming Home”.

Obviamente o time não decepcionou e faixa foi muito bem executada, mesmo que em versão mais curta e sem solo; Jeff finaliza com “We love you Ozzy!” e é devidamente aplaudido. Na sequência, ele pede a Cominato que inicie uma batida e pergunta aos fãs se eles querem se divertir. Ao obter uma resposta meio xoxa, ele retira seus fones intra-auriculares e diz que não consegue ouvi-los. “Já volto” – diz ele, se afastando do palco e dizendo que quer ouvir a galera… e de repente, simplesmente desce e começa a cantar “I’ll be waiting” lá do meio da pista premium, acompanhado apenas por um membro da equipe de apoio.

É uma pena que, na era das telas, muitos mal tenham aproveitado a oportunidade de ver com seus próprios olhos o artista tão de perto, mais preocupados em registrar videos com seus celulares em punho. Aos poucos, Jeff vai retornando ao palco, enquanto o público canta a plenos pulmões o refrão da música apenas seguindo as batidas da bateria, fato que é enaltecido pelo cantor – ele comenta que na maioria dos lugares onde tocam, as pessoas só sabem o primeiro verso e enrolam o resto, mas aqui, o povo manda muito bem, motivo pelo qual ama o Brasil. “Do caralho!”. A canção é finalizada inserindo ainda um trechinho de “Living on a Prayer”, do Bon Jovi, cujo riff é muito parecido.

Leo faz um solo virtuoso para “aquecer” (mais ainda?!) enquanto Jeff sai de cena rapidamente para retornar com a camisa da seleção brasileira – é hora do medley mais complexo da noite, “I Am a Viking” / “I’ll See the Light Tonight”, de sua fase com o guitarrista Yngwie Malmsteen. Os fãs aplaudem a performance de todos e enquanto Jeff toma um gole de sua bebida, alguém grita “vira vira vira” – ao que ele responde que está velho demais para isso. O americano, de 60 anos, conta que muitos anos de caipirinhas – incluindo algumas na companhia de Andreoli em Frankfurt em 2008 – o tornaram pré-diabético, além de terem proporcionado ganho de peso. Portanto, em prol de sua saúde, teve que reduzir drasticamente o consumo não só dos drinks como também de pão de queijo, coxinha e outras iguarias brasileiras – mas está contente com o resultado, exibindo assim sua barriga chapada.

Apresentando novamente os instrumentistas da noite, não poupa declarações fervorosas de admiração a nenhum, e lembrando que Felipe Andreoli o acompanhou também na turnê do Sons of Apollo pelo Brasil em 2022, mandam “Coming Home”. Ao estilo ‘Freddy Mercury’, porém a capella, o cantor rege a plateia os fazendo repetir suas vocalizações, demonstrando assim toda a força de sua garganta, pura e sem recursos tecnológicos de auxílio ou efeito.

Encaminhando o show para o final, Edu Cominato também tem seu momento de puxar a participação de todos com trechinhos de Twisted Sister e Kiss antes de mandarem a poderosa “Stand Up”, última do bloco de Jeff.
Um a um, os outros mestres da voz são convocados para retornarem ao palco e assim, fecharem a noite cantando juntos “Living after Midnight” – nem Paulo Baron escapou, tendo sido puxado por Jeff pelo lado direito do palco. Alternando seus vocais, mas com um pouco mais de destaque para Ripper – o “dono da faixa”, dentro desse contexto – todos fazem a festa, demonstrando mais uma vez excelente entrosamento. Cada um faz seus agradecimentos finais e após a derradeira foto com o público, ainda permanecem um tempo para jogar palhetas e outros souvenirs para alguns fãs mais próximos do palco.
Quando se trata de músicos com uma discografia tão extensa e diversificada, certamente é impossível contemplar tudo em apenas um show, mas fizeram falta músicas do Iced Earth, Almah, SOTO e Spektra. Caso o projeto siga em frente com futuras turnês, seria uma oportunidade excelente de variar o setlist e resgatar esse repertório, que atualmente é coisa rara de se ver.




Muito bom! Abraços!