Anders Colsefni diz não ter se arrependido de deixar o Slipknot
O vocalista original do Slipknot, Anders Colsefni, falou em uma nova entrevista sobre um dos capítulos mais curiosos da história da banda: a maneira como Corey Taylor acabou assumindo os vocais em gravações que posteriormente ficaram conhecidas entre os fãs como “Crowz”. Décadas depois de deixar o grupo, Colsefni afirma que finalmente está em paz com a decisão que mudou definitivamente os rumos do Slipknot e abriu caminho para o sucesso mundial alcançado pela formação liderada por Taylor.
Durante participação no podcast “The Phase Remains The Same”, Colsefni explicou que as gravações de “Crowz” não foram originalmente concebidas como uma colaboração entre os dois vocalistas. Segundo ele, o material surgiu depois que a banda enviou “Mate. Feed. Kill. Repeat.” para a Roadrunner Records e a gravadora quis saber qual seria o próximo passo do grupo. As músicas que estavam sendo compostas naquele período acabaram servindo como uma espécie de ponte entre o som inicial do Slipknot e a identidade que seria consolidada no álbum de estreia de 1999.
“Bem, ‘Crowz’ não foi algo que eu e Corey gravamos juntos. Foi logo depois de termos enviado ‘Mate. Feed. Kill. Repeat.’ para a Roadrunner, que eles quiseram saber para onde iríamos em seguida. Eles disseram: ‘Ok, este é um conjunto de músicas bem desconexas que não fazem nenhum sentido juntas. Vamos ver que direção vocês estão seguindo.’ Então, as músicas do ‘Crowz’ eram o que estávamos compondo para o nosso próximo trabalho. ‘Me Inside’, ‘Prosthetics’, ‘Heartache And A Pair Of Scissors’, que acabou virando ‘Scissors’, e várias outras músicas, ‘Crowz’, ‘Carve’, essas foram nossas próximas propostas para a Roadrunner. E o único motivo pelo qual os vocais do Corey estão em alguma delas é porque o chamaram enquanto eu estava fora, passando um fim de semana com a minha família em Minnesota, e o fizeram gravar os vocais por cima dos meus ou junto com os meus. E quando voltei, me convenceram dizendo: ‘Ei, isso vai funcionar melhor. Você vai fazer os vocais de apoio e ele vai fazer os vocais principais, porque precisamos de um vocalista principal.’ E eu concordei com isso. Eles precisavam de alguém na frente com um microfone que não estivesse batendo em outra coisa. Então, na verdade, as músicas do ‘Crowz’ eram minhas primeiro, e depois eles chamaram o Corey para regravá-las, e então venderam para a Roadrunner para que eles pudessem conseguir o contrato com a gravadora. E eu não me arrependo de nada”, explicou Colsefni, segundo transcrição do Blabbermouth.
A história ajuda a explicar uma das transições mais importantes da trajetória do Slipknot. Corey Taylor foi recrutado em 1997, quando a banda buscava uma abordagem vocal diferente, enquanto Colsefni permaneceu por algum tempo no grupo, assumindo posteriormente vocais de apoio e percussão antes de sua saída. Algumas das músicas citadas pelo vocalista original, como “Me Inside”, “Prosthetics” e “Scissors”, acabariam fazendo parte do álbum de estreia autointitulado do Slipknot, lançado em 1999 e responsável por transformar a banda em um dos maiores nomes do metal.
Para Colsefni, porém, a mudança também significou abrir mão da posição que ocupava na banda justamente no momento em que ela começava a encontrar um caminho mais acessível para um público muito maior. O músico reconhece que seu estilo vocal estava mais ligado ao death metal e que Taylor possuía características que permitiam ao Slipknot alcançar espaços que talvez não fossem possíveis com sua abordagem original:
“Sou um cantor de death metal de coração, e eles tiveram a oportunidade de seguir em frente e fazer o que estão fazendo agora porque conseguiram gravar algumas músicas que tocariam no rádio, algo que nada que eu fizesse conseguiria. Eu já sabia disso. Mas não era essa a minha intenção. O fato de isso ter acontecido, embora tenha me abalado um pouco por um tempo, me fez perceber que sou apenas mais um na longa lista de vocalistas originais que não foram os responsáveis por tornar a banda famosa. Podemos começar com o Korn, por exemplo. E levou um tempo, mas eu aceitei. E certamente estou bem com isso agora. Não me arrependo de nada. Eu só fiz o que podia, considerando o que estava acontecendo na época. E se foi preciso trazer um vocalista diferente para que uma banda local da qual eu fazia parte se destacasse e causasse um grande impacto na história, eu aceito totalmente. Eu não vivo o estilo de vida rock and roll como todos eles. Eu ainda preciso trabalhar 40 horas por semana para… Trabalho 60 horas por semana, faço todas essas coisas normais e tento encaixar a música depois, mas é isso que a maioria das pessoas faz. A maioria dos músicos por aí faz isso. Só alguns poucos escolhidos conseguem alcançar o sucesso”, afirmou.
Colsefni tinha apenas 24 anos quando deixou de ser o principal vocalista do Slipknot. Durante grande parte de sua vida adulta, ele preferiu manter distância daquele período e seguir em frente, deixando para trás as circunstâncias que cercaram sua saída. Entretanto, nos últimos anos, o músico passou a revisitar seu passado na banda e a enxergar aquela fase sob uma perspectiva completamente diferente.
O próprio vocalista admite que ficou impressionado ao perceber a importância que “Mate. Feed. Kill. Repeat.” alcançou entre os fãs, mesmo sendo um trabalho extremamente diferente do que o Slipknot apresentaria posteriormente. O disco foi gravado no SR Audio, em Des Moines, entre dezembro de 1995 e março de 1996, e lançado no Halloween daquele ano. O álbum nunca chegou oficialmente aos serviços de streaming, o que ajudou a transformá-lo em um dos itens mais cobiçados pelos fãs da banda.
“É impressionante como esse álbum em que participei fez tanto sucesso, mesmo hoje em dia. Ainda me impressiona. Pensando bem, era mesmo uma demo, porque ainda estávamos todos tentando descobrir qual seria o nosso som. O que fizemos no álbum ‘Mate. Feed. Kill. Repeat.’ é diferente do que começamos a explorar nas faixas do The Crowz, referindo-se a uma compilação de gravações demo pós-‘Mate. Feed. Kill. Repeat.’ com Anders e Corey nos vocais. Começou a ter uma pegada diferente, tentando ser algo mais conciso e fácil de entender. Mas eu amo todas essas músicas e passei muitos anos sem ouvi-las. Passei algumas décadas ignorando tudo e tentando seguir com a minha vida e manter a minha sanidade. Mas, há apenas três anos, tudo despertou em mim, e tudo isso, na minha idade agora, faz muito mais sentido do que faria quando eu tinha 24 anos”, acrescentou Colsefni.
A relação de Colsefni com esse passado também ganhou um novo capítulo em 2026. Em 6 de junho, exatamente três décadas depois de sua última apresentação daquele repertório em Iowa, o vocalista realizou um show especial no Wooly’s, em Des Moines, acompanhado por músicos veteranos do Meio-Oeste reunidos sob o nome The Crowz. A apresentação serviu como uma celebração de sua participação na fase mais primitiva da história do Slipknot.
