Geddy Lee revela como recuperou extensão vocal para cantar músicas do Rush na afinação original
Geddy Lee passou aproximadamente 18 meses trabalhando com o preparador vocal Mitch Seekins para recuperar e fortalecer sua extensão vocal antes de sair em turnê com o Rush novamente. Aos 72 anos, o músico decidiu encarar um treinamento formal depois de mais de cinco décadas de carreira para conseguir interpretar grande parte do repertório clássico da banda nas afinações originais durante a atual turnê “Fifty Something”.
Em entrevista a Brian Hiatt, da Rolling Stone, Lee explicou que chegou até Seekins, que trabalha remotamente a partir de Ilderton, em Ontário, por recomendação de um amigo. Desde então, os dois passaram a realizar sessões por videochamada, além de alguns trabalhos diretamente nos ensaios da banda.
Segundo Geddy, a decisão de buscar ajuda profissional teve como principal objetivo evitar que o repertório precisasse ser constantemente adaptado para uma tonalidade mais confortável. O cantor queria preservar, tanto quanto possível, a experiência original das músicas para os fãs.
“Era importante para mim fazer o máximo de versões originais possível para o nosso público, e eu não queria ter que começar a mudar o tom de todas as músicas e entrar nessa baboseira toda. Então, como eu faria isso? Bem, um amigo nosso me recomendou um preparador vocal. O nome dele é Mitch Seekins, e ele é um cara incrível. Ele é um ótimo cantor, mora no interior agora, e esse é o trabalho dele. Ele dá aulas para todo tipo de pessoa. É muito interessante. Ele dá aulas para cantores de ópera. Ele dá aulas para várias bandas de rock. Ele dá aulas para um cara que faz a narração das corridas de cavalo. Então, todo tipo de pessoa precisa de treinamento vocal, por vários motivos… Ele dá aulas para pessoas que, por um motivo ou outro, começaram a perder a voz. E, por isso, ele é muito experiente em analisar o que você tem. Então, eu comecei com ele — o quê? — há cerca de um ano e meio. E nas primeiras sessões, ele estava ouvindo o que eu tinha a dizer e disse, “Certo. Bem, você tem uma voz cujos músculos estão fora de forma. Você não canta há 11 anos. Isso é normal.” Então, depois das primeiras sessões, ele disse: “Bem, a boa notícia é que você ainda tem essa extensão vocal, mas precisamos fortalecer sua voz para que você possa acessá-la.” E assim começou todo esse regime de exercícios. Não é diferente de ir à academia e ficar forte. Eu vou à academia quatro dias por semana para fortalecer meu corpo. Bem, você precisa fortalecer esse músculo [que controla as cordas vocais], e foi nisso que trabalhei. E, conforme fomos avançando, ele foi muito bom em me ajudar a expandir minha extensão vocal e também a ganhar confiança nela. Parte disso é aprender novas técnicas para acessar minha extensão vocal sem precisar me esforçar tanto. Ele assistia a vídeos. Às vezes, ele vinha ao ensaio e me filmava. Eu pensava: “Nossa, que vergonha.” E ele me mostrava o vídeo e dizia: ‘Veja o quanto você se esforça para alcançar essa nota.’ Mas, quando estamos aquecendo, você alcança a nota sem se esforçar nada. Então, você precisa aprender, enquanto está lá, a respirar no momento certo — isso é mais da metade do trabalho — e a posicionar a voz e a analisar minuciosamente como a voz produz um som e aplicar esse conhecimento. Já faz um ano e meio, mas está valendo a pena, e estou bastante satisfeito com o meu progresso. Acho que, se eu continuar praticando, vai continuar melhorando. Espero. E preciso me manter saudável”, explicou Geddy Lee, conforme transcrição do Blabbermouth.
A preparação acabou permitindo que Geddy encarasse algumas músicas que, inicialmente, ele acreditava não ser mais capaz de cantar. Seekins ajudou o músico a entender que determinadas notas ainda estavam ao alcance de sua voz, desde que ele aplicasse corretamente as técnicas trabalhadas durante os exercícios.
“Eu pensei: ‘Não tem jeito de eu conseguir cantar essa música’”, continuou ele. “Não tem jeito de eu conseguir cantar essa música. Não consigo alcançar essas notas.’ E ele ouvia e dizia: ‘Bom, isso é um Mi. É agudo, mas você consegue. Você está cantando Mi no aquecimento.’ E isso não é Mi. Isso é uma oitava acima do Mi normal de todo mundo. ‘E eu te estiquei até Fá sustenido. Eu te estiquei até Sol.’… Então eu estava nervoso para tentar algumas dessas músicas, e aí ele me encorajava, e eu cantava. E eu tinha dificuldade no começo, mas depois ouvia as músicas com ele, e ele dizia: ‘Não, você consegue. Tente isso. Respire aqui. Lembre-se de quando estiver cantando os refrões de “A Farewell To Kings”, faça a voz vibrar.’” E isso ajuda. Todos esses pequenos truques — que na verdade não são truques, são exercícios — ajudam você a perceber: ‘Olha, eu consigo.’”
O trabalho também fez Geddy Lee revisitar uma técnica vocal que ele utilizava naturalmente nos primeiros anos do Rush, mas que acabou deixando de praticar ao longo do tempo. O preparador vocal percebeu a diferença ao comparar a voz atual do músico com suas gravações clássicas.
“Mitch disse: ‘Quando ouço seus primeiros discos, não consigo acreditar na maneira como você alcança aquelas notas sem nem pensar.’ Porque é uma combinação — é o que chamam de fusão, onde você mistura a voz de peito e a voz de cabeça, e eu fiz isso instintivamente a vida toda”, acrescentou Geddy. “E em certo ponto, eu parei de trabalhar as técnicas para manter aquelas músicas com notas muito altas, então começamos a deixar de lado algumas dessas músicas superagudas. E foi um desafio para mim trazê-las de volta.”
Apenas duas músicas foram transpostas
Apesar do extenso trabalho vocal, Geddy Lee revelou que apenas duas músicas do repertório atual do Rush foram oficialmente transpostas para tons mais baixos: “Anthem” e “2112”. Todo o restante do repertório permanece nas tonalidades originais.
“”Anthem” está um tom abaixo, e “2112” também. Todo o resto está no tom original. Bem, francamente, “Anthem” soa muito mais pesada um tom abaixo. Às vezes, você abaixa um tom para dar mais impacto à música. E embora eu pudesse cantar “2112” no tom original, acho que ela soa mais pesada assim agora. Isso é em parte uma desculpa e em parte a verdade. Então, sim, acho que nenhuma dessas duas músicas sofreu com isso. Inicialmente, íamos tirar “Kings” do tom original. Mas aí pensamos: ‘Não, ela soa melhor no tom original, então temos que mantê-la no tom original’. Então, revisamos todo o catálogo dessa forma, avaliando se os tons estavam bons, especialmente com “Freewill”. Não havia como eu cantar essa música a menos que conseguisse alcançar o terceiro verso, que é realmente o verso mais agudo que canto a noite toda.”
A declaração mostra o tamanho do desafio enfrentado pelo vocalista para retornar aos palcos depois de uma década longe das turnês. Em vez de simplesmente adaptar o repertório às limitações naturais provocadas pelo tempo, Geddy optou por trabalhar sua técnica para recuperar parte da capacidade vocal que tinha durante os períodos mais intensos da carreira do Rush.
Rush volta aos palcos após 11 anos
A turnê “Fifty Something” começou em 7 de junho no Kia Forum, em Inglewood, Califórnia, mesmo local onde o Rush encerrou a turnê “R40” em 1º de agosto de 2015. A atual excursão marca o retorno da banda aos palcos após 11 anos e também é a primeira sem o lendário baterista Neil Peart, que morreu em 2020.
Para ocupar a bateria, Alex Lifeson e Geddy Lee escolheram a alemã Anika Nilles, conhecida por seu trabalho com a banda de apoio de Jeff Beck. O Rush também passou a contar com Loren Gold nos teclados, músico que já trabalhou com The Who e Chicago.
Com isso, a formação que acompanha Lee e Lifeson é a maior já utilizada pelo Rush em uma turnê, com quatro músicos no palco. Cada apresentação é dividida em dois sets e reúne mais de 40 músicas, com material abrangendo diferentes períodos da trajetória da banda.
No Brasil, a banda chega no começo do próximo ano, passando por diversas capitais, incluindo duas noites em São Paulo. Os ingressos estão sendo vendidos no site da Eventim.
