Crítica: Mortal Kombat II corrige erros do primeiro longa mas se agarra em fiapo de roteiro
Mortal Kombat é uma das franquias de maior sucesso dos videogames e alguns dos elementos que contribuíram para isso foram a vasta gama de personagens que foram aparecendo a cada nova sequência, o tom de humor negro em não se levar a sério e, claro, a sanguinolência. Agora imagine pegar tudo isso, que são as marcas registradas da série, e jogar fora num embrulho direto na lata do lixo.
Foi exatamente isso que o filme Mortal Kombat (2021) fez. A franquia possui inúmeras versões para os mais diversos consoles ao longo de mais de 30 anos e o que não lhe falta são personagens e histórias para explorar. No entanto, no reboot, isso foi deixado de lado para criar um personagem inédito como protagonista da trama — algo que parecia saído diretamente da cartilha da série de filmes de Resident Evil.
Cole Young, interpretado por Lewis Tan, surgiu da mente de alguém que realmente acreditou ser necessário inventar uma ligação forçada entre esse novo lutador e a descendência de Hanzo Hasashi, o Scorpion, vivido por Hiroyuki Sanada. E, de alguma forma, acharam que isso era uma grande ideia.
Além disso, todo o tom de paródia que os jogos e até os dois filmes dos anos 1990 carregavam, sem jamais se levarem a sério, foi abandonado para dar espaço a uma abordagem mais séria e “realista”. Só que justamente essa exagerada falta de compromisso com o real é parte essencial do charme de Mortal Kombat.
Felizmente, para a sequência que chegou aos cinemas este ano, alguém aparentemente mais lúcido olhou para tudo isso e pensou: “Por que fizemos isso? Vamos mudar o jogo.”
E assim nasce Mortal Kombat II, corrigindo praticamente todos esses pontos. Cole Young é reduzido a um mero coadjuvante e com um desfecho que muitos fãs certamente vão considerar “merecido”. O tom sério também é deixado de lado e o longa abraça completamente o fan-service, sem medo de soar cafona, exagerado ou canastrão em diversos momentos.
Agora sim devidamente caracterizados, a história gira em torno da batalha entre os campeões de Raiden, interpretado por Tadanobu Asano, contra o imperador Shao Kahn, vivido por Martyn Ford, que tenta dominar o Plano Terreno através do torneio mortal.
Esse é o fiapo de história ao qual o filme se agarra como desculpa para desfilar sequências de luta que, em alguns casos, são visualmente muito interessantes, como o combate entre Liu Kang (Ludi Lin) e Kung Lao (Max Huang) no clássico cenário do templo com o portal azul ao fundo, culminando em uma finalização que certamente vai agradar os fãs antigos dos games.

As grandes novidades no protagonismo ficam por conta de Kitana, interpretada por Adeline Rudolph e Johnny Cage, vivido por Karl Urban.
Os dois funcionam justamente como o equilíbrio entre o sério e o cômico dentro do longa. Kitana carrega um ar mais dramático, marcada pelo trauma da morte do pai diante de seus olhos e movida por vingança. Já Johnny Cage é exatamente o oposto: um ator decadente, preso ao passado, completamente canastrão e carregando o sarcasmo característico que o próprio Karl Urban já mostrou em papéis como Billy Butcher na série The Boys.
Daí em diante, o filme vira um verdadeiro desfile de golpes clássicos, fatalities, figurinos e personagens conhecidos pelos fãs da franquia, incluindo Jax Briggs (Mehcad Brooks), Sonya Blade (Jessica McNamee), o fanfarrão Kano de Josh Lawson, além de Jade (Tati Gabrielle), Quan Chi (Damon Herriman), Shang Tsung (Chin Han), Sindel (Ana Thu Nguyen), Baraka (CJ Bloomfield) — que protagoniza uma das melhores cenas do longa — e Noob Saibot / Bi-Han, novamente interpretado por Joe Taslim.
O problema é que tudo realmente acontece como um grande desfile. Após um resumo extremamente rápido da trama nos primeiros 20 minutos, o filme simplesmente passa a jogar personagens na tela para que as lutas aconteçam.
Alguns combates são bastante divertidos, como os citados entre Johnny Cage vs Baraka e Liu Kang vs Kung Lao. Outros, porém, soam apressados ou pouco inspirados, como Sonya Blade vs Sindel e Shao Kahn vs Cole Young, embora este último ao menos entregue um final que certamente arrancará aplausos de parte dos fãs como uma redenção à eles.
Claro que, em um filme como esse, a prioridade sempre será a pancadaria. Mas chega a ser engraçado perceber como tudo simplesmente acontece sem qualquer construção mais sólida. Algumas lutas terminam tão rápido que, se você piscar, perde. Outras se arrastam mais do que deveriam, especialmente a batalha final, em que o roteiro claramente força o retorno de Scorpion apenas pelo carisma de Hiroyuki Sanada e para colocá-lo novamente frente a frente com Bi-Han, antigo Sub-Zero agora transformado em Noob Saibot. E a conclusão dessa luta que é principal da história, acaba escorregando para algo piegas e cafona até demais.
Mesmo corrigindo os principais problemas do longa anterior, especialmente no tom e no protagonismo, Mortal Kombat II ainda está longe de ser um grande filme. Em diversos momentos, inclusive, os efeitos especiais fazem parecer que estamos assistindo a uma cutscene de videogame e por mais estranho que isso possa soar, temos muito vídeo-game aqui e pouco cinema.
Ainda assim, o longa funciona justamente pela nostalgia (inclusive resgatando a icônica música do filme de 1995), pelas referências e pelos inúmeros easter eggs espalhados ao longo de pouco mais de 1h40 de duração. E isso acaba sendo um mérito em tempos de blockbusters que se transformam em verdadeiras odisseias intermináveis para contar histórias que poderiam ser resolvidas na metade do tempo.
Pela diversão, pelo gore e pelo clima completamente despretensioso, Mortal Kombat II vale a conferida. E se tudo o que você procura é violência exagerada, humor e fatalities absurdos, talvez esta seja mesmo uma das adaptações de videogame mais divertidas já feitas.
