Andreas Kisser explica por que governos autoritários temem a arte e destaca o poder inclusivo do heavy metal
Em uma nova entrevista ao programa The Adventures Of Pipeman, o guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, falou sobre a relação entre arte, cultura e regimes autoritários. Para o músico, governos que buscam controlar a população enxergam a produção artística como uma ameaça justamente por sua capacidade de estimular reflexão, questionamento e autoconhecimento.
Ao abordar a maneira como regimes autoritários historicamente tentaram controlar artistas e reprimir manifestações culturais contrárias às suas ideologias, Kisser afirmou que a arte costuma estar entre os primeiros setores atingidos.
“É por isso que eles têm medo da arte e da cultura. Em um governo fascista ou uma ditadura, os primeiros a sofrer são as artes — cinemas, música, pinturas, poemas, textos de jornais, livros e assim por diante. São os primeiros.”
Para o guitarrista, essa perseguição acontece porque a arte possui uma capacidade particular de atingir cada indivíduo de maneira diferente, provocando processos internos que podem dificultar o controle social.
“Por que eles queimam livros? Porque eles transformam as pessoas… Porque a arte te toca de uma maneira muito singular. É um processo de autoconhecimento, observar uma pintura, pintar você mesmo, ouvir música, qualquer forma de arte, tudo isso te ajuda no autoconhecimento e na evolução, no autodesenvolvimento.”
Segundo Kisser, esse potencial transformador é justamente aquilo que assusta aqueles que pretendem exercer controle sobre uma sociedade.
“E é por isso que as pessoas têm medo. Porque eles querem que sejamos estúpidos para poderem nos controlar. Dividir para conquistar.”
Andreas Kisser vê o heavy metal como uma grande família
Em outro momento da entrevista, Andreas Kisser falou sobre o caráter que considera culturalmente inclusivo dentro do heavy metal.
O guitarrista destacou que a comunidade do gênero reúne pessoas de diferentes idades, religiões, orientações sexuais e posicionamentos políticos, além de uma presença cada vez mais ampla de mulheres e artistas de diferentes origens.
“É uma grande família. A comunidade do heavy metal é uma família linda. Muito inclusiva. Sem besteiras, sem cancelamentos.”
Como exemplo, Kisser citou Rob Halford, vocalista do Judas Priest, que revelou publicamente sua homossexualidade em 1998.
“Quando o vocalista do Judas Priest, Rob Halford, se assumiu publicamente como homossexual, não houve nenhum cancelamento. Todos o acolheram de verdade.”
O músico também ressaltou a presença feminina na cena e a diversidade racial existente dentro do gênero.
“Há muitas mulheres [na cena], muitas bandas femininas. Temos um vocalista negro, Derrick Green. Tantos elementos que compõem o heavy metal.”
Derrick Green integra o Sepultura desde 1997 e se tornou uma das vozes mais importantes da história recente da banda. Para Kisser, a variedade de pessoas que fazem parte da comunidade ajuda a explicar a força cultural alcançada pelo gênero.
Sepultura levou o heavy metal para mais de 80 países
A própria trajetória internacional do Sepultura foi utilizada por Andreas Kisser para ilustrar o poder que a música possui de ultrapassar fronteiras políticas, culturais e religiosas.
O guitarrista destacou que a banda passou mais de quatro décadas viajando pelo mundo e encontrou públicos diferentes em dezenas de países.
“É por isso que é o estilo mais popular do mundo. O Sepultura visitou mais de 80 países em 42 anos de história, de carreira.”
Para Kisser, essa experiência mostra como a música pode criar conexões entre pessoas que, fora daquele ambiente, poderiam estar separadas por diferenças culturais, políticas ou religiosas.
“É incrível como a música abriu portas, independentemente de política, ditadura ou religião. É incrível. Muito poderoso.”
O Sepultura fará o seu último show no dia 7 de novembro, em São Paulo, na Mercado Livre e serão acompanhados pelo Sacred Reich e o Metal Allegiance.
