“Painkiller”, do Judas Priest, completa 36 anos: como o disco salvou a banda de virar coisa do passado
Em meio a um processo judicial que ameaçava seu legado e uma dupla de álbuns decepcionantes, o Judas Priest apostou tudo em um baterista novo, um produtor diferente e a fúria que faltava — e o resultado se tornou um dos discos mais respeitados da história do heavy metal
Há exatos 36 anos, em 17 de setembro de 1990, o Judas Priest lançava na Europa aquele que muitos consideram o disco mais extremo e influente de sua carreira: “Painkiller“. Mas para entender por que esse disco significou tanto para a banda de Birmingham, é preciso voltar um pouco no tempo — para um momento em que o Judas Priest parecia, segundo boa parte da crítica da época, uma banda ultrapassada demais para sobreviver à nova geração do metal.
Uma banda em crise de identidade
No fim dos anos 1980, o Judas Priest vinha de dois álbuns considerados os mais fracos de sua trajetória: “Turbo” (1986) e “Ram It Down” (1988), ambos marcados por guitarras sintetizadas e uma tentativa de aproximação com o glam metal então dominante nas paradas. O problema é que, enquanto isso, bandas como Metallica, Anthrax e Slayer empurravam o metal para um território mais veloz, técnico e agressivo — e o Judas Priest, criador de boa parte do vocabulário sonoro que essas bandas usavam, corria o risco de ficar para trás justamente na corrida que havia ajudado a começar.
Foi nesse cenário que a formação clássica composta por Rob Halford (vocais), Glenn Tipton e K.K. Downing (guitarras) e Ian Hill (baixo) decidiu promover duas mudanças decisivas antes de entrar em estúdio: trocar o baterista e trocar o produtor.
A saída de Dave Holland e a chegada de Scott Travis
Dave Holland, baterista da banda desde 1979 e presente em discos como “British Steel” e “Screaming for Vengeance”, deixou o Judas Priest em 1989. Em seu lugar entrou Scott Travis, então baterista da banda de speed metal Racer X, conhecido por seu estilo técnico e pela batida dupla de bumbo extremamente veloz. A escolha não foi por acaso: a banda queria exatamente o tipo de impacto rítmico que faltava nos dois álbuns anteriores, e Travis trouxe isso com folga — tanto que, segundo relatos da própria produção, ele acabou se tornando o baterista mais duradouro da história do grupo, superando o próprio Holland em tempo de casa.
Do lado da produção, saiu o veterano Tom Allom, responsável por praticamente todos os discos do Judas Priest entre 1980 e 1988, e entrou Chris Tsangarides, que já havia trabalhado com a banda décadas antes, como engenheiro do clássico “Sad Wings of Destiny” (1976). A missão de Tsangarides era clara: recuperar a crueza e o peso que o som mais polido da década de 1980 havia diluído.
Gravação sem artifícios
As sessões de “Painkiller” aconteceram entre janeiro e março de 1990, no Miraval Studios, na região francesa de Correns, com a mixagem finalizada no Wisseloord Studios, na Holanda. Um dos detalhes mais curiosos sobre a gravação — revelado anos depois pelo próprio Scott Travis em entrevistas técnicas sobre o processo — é que, ao contrário do que a precisão quase industrial da bateria do disco sugere, praticamente nenhuma substituição eletrônica de som foi usada nas faixas. Em uma época em que o gatilho digital de bateria (drum triggering) começava a se popularizar nos estúdios, o Judas Priest optou pelo caminho mais difícil: captar a pancada real de Travis, quase sem reforço artificial, com exceção de apenas uma música do álbum.
O disco também guarda uma participação discreta que muitos fãs desconhecem: o tecladista Don Airey, futuro integrante do Deep Purple, tocou teclado e baixo sintetizado — emulando uma linha de baixo — em uma das faixas, sem receber crédito na capa original.
Falando sobre a intenção por trás do som mais pesado do álbum, o guitarrista Glenn Tipton resumiu a proposta da época de forma direta: o disco seria, em suas palavras, praticamente o mais pesado que a banda seria capaz de fazer.
Um lançamento atrasado por um julgamento
Apesar de finalizado ainda em março de 1990, “Painkiller” só chegou às lojas em setembro daquele ano — um atraso de vários meses causado por um episódio bem mais sombrio do que qualquer questão de estúdio. O Judas Priest enfrentava, na época, um processo civil movido por famílias de dois jovens que haviam tentado suicídio em 1985, alegando que a faixa “Better by You, Better than Me” (do álbum “Stained Class”) continha mensagens subliminares que teriam induzido o ato. O julgamento, amplamente divulgado pela imprensa da época, terminou com a absolvição da banda: a Justiça concluiu que não havia provas de responsabilidade civil da banda pelos casos. Só depois de encerrado esse capítulo judicial é que a gravadora seguiu com o plano de lançamento do disco.
A capa e a identidade visual
A ilustração de capa, com a figura mecânica e monstruosa que dá nome ao álbum montada sobre uma motocicleta futurista, foi criada pelo ilustrador britânico Mark Wilkinson, já conhecido por trabalhos anteriores com bandas de metal. A imagem se tornaria, com o tempo, um dos símbolos visuais mais reconhecíveis da discografia do Judas Priest, quase tão icônica quanto a própria música que carrega seu nome.
O legado: o fim de um ciclo e o início de outro
“Painkiller” acabou se tornando, sem que ninguém soubesse na época, o fim de uma era. Foi o último álbum de estúdio gravado por Rob Halford com o Judas Priest antes de sua saída, anunciada após a turnê do disco — o cantor só retornaria à banda 15 anos depois, no álbum “Angel of Retribution” (2005). Após deixar o Judas Priest, Halford formaria o projeto Fight, justamente ao lado de Scott Travis, levando adiante parte da agressividade que os dois haviam ajudado a construir em “Painkiller”.
Mais de três décadas depois, o disco segue sendo apontado por críticos e fãs como um divisor de águas na carreira da banda — o momento em que o Judas Priest, ameaçado de se tornar irrelevante, respondeu com um dos trabalhos mais velozes, tecnicamente apurados e agressivos de toda sua discografia.
