John Cooper, do Skillet, revela ter sofrido abuso espiritual em igreja que frequentava há 30 anos
John Cooper, vocalista do Skillet, revelou publicamente ter enfrentado o que descreve como abuso espiritual dentro da igreja que ele e sua esposa e colega de banda, Korey Cooper, frequentavam havia três décadas. As declarações foram compartilhadas por Alisa Childers e tratam de uma congregação fundada pelo pai de Korey, na qual o casal esteve envolvido por trinta anos.
Segundo Cooper, os últimos dois anos foram marcados por um sofrimento intenso após o que ele classifica como abuso de autoridade religiosa por parte da liderança da igreja:
“Nos últimos dois anos, sem exagero, nossas vidas foram absolutamente devastadas, e isso soa muito dramático, mas vamos falar sobre isso. Foram os anos mais difíceis da minha vida, tirando a adolescência. Minha mãe faleceu e eu já falei sobre isso, mas nunca lidei com esse nível de angústia, depressão e confusão depois do que eu chamaria de abuso na igreja, abuso espiritual, abuso de autoridade religiosa. Nos últimos dois anos, temos lutado apenas para manter a fé.”
Vale destacar que as caracterizações de “abuso espiritual” e “abuso de autoridade” citadas nesta matéria são a interpretação pessoal de Cooper sobre os eventos vividos por ele e sua esposa, e não uma conclusão jurídica ou institucional independente sobre a conduta da igreja ou de seus líderes.
A fé pessoal preservada em meio à crise
O músico fez questão de diferenciar sua relação com a fé cristã da crise vivida com a comunidade religiosa da qual fazia parte:
“Posso dizer que nunca desisti de Jesus. Nunca questionei se Jesus era real, mas era como se eu pensasse: ‘Jesus, preciso que você me encontre todos os dias porque não sei a que lugar pertenço. Não sei onde você está agora. Não entendo o que aconteceu conosco.’ E a razão pela qual quisemos compartilhar isso agora é porque está havendo uma epidemia disso. Está acontecendo em todos os setores da igreja. Então, agora vemos isso muito nos círculos carismáticos.”
Meses de tentativas privadas antes da decisão de falar publicamente
Cooper afirmou ter buscado uma resolução privada da situação por mais de dois anos antes de decidir se manifestar publicamente sobre o assunto:
“Só quero que essas pessoas entendam que esta é a última coisa que queríamos fazer. Esperamos… foram mais de dois anos. E falaremos disso mais tarde, mas implorei e supliquei à minha antiga igreja que fizesse algumas coisas para que não precisássemos fazer isso. E a minha paciência caiu muito. Acabou com mais de cem pessoas alegando terem sofrido abuso espiritual por parte desta igreja, lutando para encontrar a fé.”
É importante frisar que o número de “mais de cem pessoas” mencionado por Cooper refere-se a alegações relatadas por ele, ainda não verificadas de forma independente nesta reportagem.
A investigação independente nunca divulgada
Segundo o vocalista, uma investigação sobre a liderança da igreja teria sido encomendada por iniciativa do próprio líder da rede de igrejas, mas suas conclusões nunca teriam sido tornadas públicas:
“Houve até uma investigação por uma empresa terceirizada, contratada pelo líder desse grupo de igrejas. Eles o chamam de apóstolo. Então, é um apóstolo. Coloco isso entre aspas. Os apóstolos contrataram a empresa terceirizada. Essa empresa fez a investigação, divulgou suas conclusões há seis meses, afirmando que esse era um padrão, um padrão de abuso de longa data, recomendando que os apóstolos renunciassem permanentemente, recomendando que ele fizesse terapia e dizendo: ‘Vocês precisam trabalhar pela reconciliação com todas essas pessoas que foram feridas’.”
Segundo o relato de Cooper — e é importante frisar que se trata de sua versão dos fatos, sem confirmação independente por parte desta reportagem —, a liderança da igreja não teria tomado nenhuma medida em relação às conclusões apresentadas pela investigação e, em vez disso, teria atribuído a ele e a Korey influências de “forças maliciosas”:
“Já se passaram seis meses e as igrejas não disseram nada. Agiram como se nada tivesse acontecido. Então, fizemos tudo o que podíamos para tentar dizer: ‘Por favor, não façam isso’. E gostaria de ressaltar para quem estiver perguntando: ‘Por que vocês estão fazendo isso? É tão divisivo’. Também quero que saibam que, embora não tenhamos nos pronunciado publicamente, este apóstolo falou publicamente do púlpito sobre nós, dizendo que estamos sendo usados por Satanás. Que nossas críticas à sua doutrina vêm do inimigo, do próprio diabo.”
Uma ruptura pessoal e familiar
Cooper também comentou o peso emocional da situação, já que a liderança da igreja envolvida tinha ligação direta e próxima com sua própria família:
“Nós amávamos nossa igreja. Estivemos lá por 30 anos. Na verdade, Korey frequenta a igreja desde que nasceu. O pai de Korey fundou a igreja e ainda é um dos anciãos. O apóstolo é cunhado de Korey e foi meu melhor amigo por 30 anos. E ser descartada e tratada da maneira como fomos tratadas… estamos falando de pessoas que eu amo mais do que qualquer pessoa no mundo. Elas foram tão boas para mim. Foram os melhores anos da minha vida. E também, sinto que estou sendo descartada e abusada de uma forma que eu jamais imaginaria que um inimigo me trataria assim. E eu não sei como conciliar essas coisas.”
Um padrão que ultrapassa a própria congregação
O relato de Cooper toca em uma discussão mais ampla sobre estruturas de autoridade dentro de redes de igrejas carismáticas. Segundo a descrição apresentada, a congregação frequentada por ele e Korey opera dentro de uma estrutura associada à chamada Nova Reforma Apostólica — movimento pouco institucionalizado dentro do cristianismo carismático que atribui a apóstolos e profetas contemporâneos autoridade de liderança sobre redes de igrejas. Críticos desse modelo argumentam que ele concentraria poder espiritual nas mãos de um número reduzido de líderes, com pouco espaço para mecanismos internos de controle ou responsabilização diante de eventuais denúncias de má conduta — uma crítica ao modelo institucional, e não uma acusação formal contra indivíduos específicos.
Cooper descreveu ainda um ambiente em que o questionamento das decisões da liderança não era bem recebido, e afirmou que pessoas que decidiram deixar a congregação — incluindo sua própria família — enfrentaram represálias públicas e isolamento social por parte da comunidade da qual antes faziam parte.
Situações com contornos semelhantes têm sido relatadas em outras igrejas carismáticas e apostólicas nos últimos meses, com ex-membros apontando estruturas em que a palavra de um único líder teria peso praticamente irrefutável — o que, segundo essas críticas, dificultaria a contestação de condutas mesmo diante de investigações independentes que corroborem as denúncias. O silêncio de seis meses após a investigação relacionada à antiga igreja de Cooper, segundo relatado por ele, se encaixaria nesse padrão mais amplo discutido por críticos do modelo de governança apostólica.
